Armando Malheiro | Faculdade de Letras | Universidade do Porto | Colaborador do blogue

(artigo completo em pdf – Notas soltas sobre CI 3)

Mais sobre as surpreendentes e recomendáveis Actas do 3º EDIBCIC – Ibérico

Feita a apresentação genérica nas Notas precedentes, pretendo, antes de me deter um pouco no conteúdo das Actas, sublinhar a sua importância e utilidade para uma abordagem comparativa que se impõe, em nível da Península Ibérica, sobre o estado da investigação e formação graduada e pós-graduada na área da Documentação e Informação.

Para começar sobressai o imperativo da aproximação entre docentes, investigadores e profissionais da Informação e Documentação de Portugal e de Espanha, iniciado em 2005, com o primeiro EDIBCIC Ibérico e ampliado, de forma madura e promissora, no terceiro. Hoje podemos dizer que o diálogo entre portugueses e espanhóis possui um espaço já enraizado em que já não será mais possível desconhecer e/ou prosseguir trajectórias separadas, sem um conhecimento mútuo e sem uma intensa troca de idéias e de experiências. Atingiu-se, assim, um marco de relevo a partir do qual será possível colher assinaláveis vantagens para um futuro de potencial cooperação efectiva, que tem de se iniciar agora.

Percorrendo, com atenção, as quatro secções do Encontro, que as Actas reflectem[1], compreende-se que o tópico da Formação tenha sido o primeiro, aberto com duas comunicações de fundo que permitem comparar a situação dos vários níveis formativos em Espanha e em Portugal, bem como o impacto do Processo de Bolonha ou do Espaço Europeu do Ensino Superior em ambos os países.

Pela comunicação de José Antonio Frias – La Formación universitária en Información y Documentación en Espana a las puertas del EEES: retos y oportunidades – ficamos a saber que os estudos de Biblioteconomia e Documentação começaram em Espanha, com o decreto de 1978 do Ministério da Educação e Ciência, através do qual essa área foi integrada ao sistema universitário, em 1981, fixando as bases da Diplomatura em Biblioteconomia e Documentação, nas várias escolas universitárias criadas para a leccionarem. De fora deste esquema formativo ficou a formação dos arquivistas até hoje. É de notar que, antes de 1978, a formação foi essencialmente técnica, desenvolveu-se a partir de 1858 e agregou Bibliotecas, Arquivos e Museus. O processo de formação universitária começou com a diplomatura ou bacharelato, passando depois para o de licenciatura, coexistindo, até ao momento, os dois graus. E é interessante observar que a integração orgânica dos cursos, nas 17 Universidades que os acolheram, não se fez uniformemente, o que revela um problema epistemológico de base: que área é esta? Técncia e profissional e/ou científica? Em duas Universidades existem as Faculdades de Biblioteconomia e Documentação (Barcelona e Extremadura) assumindo, assim, uma certa autonomia disciplinar, mas, ao mesmo tempo, demarcando Biblioteconomia (e não Bibliotecologia, distinção importante na América Latina) de Documentação, o que evidencia ser uma solução antiga do primeiro quartel do séc. XX. Em Alcalá de Henares, há uma Faculdade de Documentação, em Salamanca há a Faculdade de Tradução e Documentação, na de Vic a Faculdade denomina-se Ciências Humanas, Tradução e Documentação. Uma ligação da Documentação às Ciências da Comunicação foi a solução encontrada na Autônoma de Barcelona, na Carlos III (Madrid), na de Granada e na de Múrcia. Duas Faculdades de Humanidades – a de Coruña e San Pablo-CEU- acolhem a área em foco. O mesmo sucede com a Faculdade de Geografia e História da Universidade de Valência (Estudo Geral). E, em Zaragoza, o curso cabe na Faculdade de Filosofia e Letras. Singulares são os casos da Universidade Aberta de Barcelona, com os Estudos de Ciências de Informação e Comunicação, que aqui destaco porque sintoniza bastante com o projecto em curso na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, da criação de um Departamento de Ciências da Informação e Comunicação; da Complutense de Madrid, onde deparamos com a Faculdade de Ciências da Documentação, que parece espelhar o trabalho epistemológico que vem sendo desenvolvido por José López Yepes (editor do Diccionario Enciclopédico de Ciências de la Documentación, Editorial Sintesis, 2 vols., 2004) e da Faculdade de Informática, na Politécnica de Valência, sem dúvida [,] o mais radical, na medida em que parece diluir as técnicas documentais no universo das Tecnologias da Informação e Documentação – TIC’s.

[1] Ficaram fora destas Actas a comunicação solicitada às colegas Manuela Barreto Nunes (Universidade Portucalense) e Viviana Marcial Fernandez (Universidade A Coruña). No último dia do Encontro fizeram a sua intervenção intitulada Cooperación docente e investigadora entre universidades portuguesas e espanholas: situación actual e propuesta de futuro.

Na sua comunicação, José Antonio Frias explica como a área da Biblioteconomia e Documentação em Espanha se organizou para dar resposta ao repto do Processo de Bolonha ou EEES, corporizado nas directrizes da Agencia Nacional de Evaluación, Calidad y Acreditación-ANECA. Em conformidade com elas e com as competências fixadas pelo Euroguide LIS (desenvolvido no âmbito do programa Leonardo da Vinci da Comissão Européia) , foi elaborada uma proposta de título de grau em Informação e Documentação apresentada como Livro Branco, da qual acho importante destacar os conteúdos comuns obrigatórios (troncalidade) do título de grau em Informação e Documentação:

1. Documentos, unidades e sistemas de informação (12 créditos);

2. Planificação, organização e avaliação das unidades de informação (24 créditos) ;

3. Fontes de Informação (12 créditos) ;

4. Representação e recuperação da informação (36 créditos);

5. Gestão técnica de documentos de arquivos (18 créditos);

6. Tecnologias da Informação e edição digital (24 créditos);

7. Fundamentos e metodologias de investigação: estudos métricos de informação (18 créditos);

8. Praticum (12 créditos) – corresponde a um estágio curricular em unidades de informação.

A inclusão de uma matéria troncal relativa aos Arquivos consolida a necessidade de dotar os graduados ou licenciados de conhecimentos técnicos que os tornem aptos para exercitar a profissão de arquivista, a par de outras como a de bibliotecário, documentalista, gestor de bases de dados, etc. Uma postura que tem enfrentado a oposição dos arquivistas espanhóis, obcecados com a idéia de criarem uma licenciatura específica. Esta tensão ou confronto, de contornos claramente corporativos, não encontra, felizmente, em Portugal um terreno tão propício para se perpetuar.

Apesar da grade curricular estar definida, nas suas traves-mestras, e de prevalecer o propósito assumido pela RUID (Rede de Centros e Departamentos Universitários de Informação e Documentação) de haver uma denominação comum, um consenso mínimo dos conteúdos ministrados, nas diferentes Universidades, e um reforço do carácter transversal da disciplina, o processo sofre algum atraso, por razões que se prendem, exclusivamente, com alterações no modelo de aprovação das titulações universitárias, pelo Ministério da Educação e Ciência. No que toca à implementação do 2º (mestrado) e 3º ciclos (doutoramento), constata-se haver já alguns Másters oficiais em funcionamento, que começaram mesmo antes da aprovação oficial da titulação de grau.

A outra comunicação de fundo – A Formação em informação e documentação: Portugal na contemporaneidade – ficou a cargo da docente na Licenciatura em Ciência da informação da Universidade do Porto, Manuela Azevedo Pinto. A autora está vinculada a uma perspectiva epistemológica minoritária, sedeada no Grupo de Ciência da Informação da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, apesar de esforços aproximados que, no espaço anglo-americano e escandinavo, vêm sendo feitos, desde a década de setenta do séc. XX, no sentido do reforço da cientificidade da Information Science, pela via de metodologias quantitativas (inquéritos, tratamento estatístico dos resultados, infometria, etc.).

O posicionamento de Manuela Pinto é evidenciado pela premissa da mudança de paradigma que está em marcha, opondo um paradigma custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista, consolidado no séc. XIX, ao paradigma emergente pós-custodial, informacional e científico. E a formação em Portugal é situada à luz deste binômio paradigmático.

No paradigma ainda vigente, e cada vez mais desajustado face à Era da Informação, onde já estamos, radica o modelo que de 1935 a 1981 vigorou em Portugal, através do Curso de Bibliotecário-Arquivista, ministrado como especialização pós-licenciatura (em princípio, qualquer licenciado poderia candidatar-se a fazer esta formação de dois anos, mas por razões óbvias, predominaram os de História, Românicas e Germânicas), e que a reformulação instituída, a partir de 1982, com os Cursos de Especialização em Ciências Documentais (primeiramente nas Faculdades de Letras de Coimbra e de Lisboa e, em 1985, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto) não alterou quanto à substância, a não ser o desdobramento dos “cadeirões” do velho curso de Coimbra e a criação de umas disciplinas novas (como, por exemplo, Informática para Bibliotecas ou Informática para Arquivos) e a separação formativa de bibliotecários e arquivistas, à semelhança do que passou a acontecer em Espanha, no Brasil e em outras latitudes. Sublinhe-se, aqui, que a reforma ocorrida em Portugal é simultânea com a que se operou em Espanha, mas o âmbito e o impacto foram muito diferentes: em Espanha a aposta na diplomatura e na licenciatura obrigou a ter, nas Universidades, um corpo docente exclusivo com obrigatoriedade de progressão na carreira, através de provas científicas como o doutoramento; em Portugal, os CECD’s podiam ser leccionados por arquivistas, bibliotecários e documentalistas, colocados como técnicos superiores em Arquivos e Bibliotecas Públicas ou Privadas, não sendo obrigados a actualizarem-se, nem a fazerem pós-graduações, que, aliás, não existiram na área salvo raras excepções – no início dos anos 90 a Universidade de Sheffield do Reino Unido firmou uma parceria com o Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia para a realização do Máster of Science in Information Management, a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, seguindo de perto o Máster de Sheffield, lançou o Mestrado em Gestão de Informação, convertido, em 2007-2008, em Mestrado em Ciência da Informação e 2º ciclo do projecto formativo conjunto com a FLUP. Em 2001-2002, surgiu o Mestrado em Ciências Documentais da Universidade de Évora; quanto a doutoramentos, sem parte curricular, o primeiro em Ciências Documentais foi iniciado pela FLUP em 1989.

A escassez de oferta em Mestrado e Doutoramento e a fraquíssima procura agravou o déficit de qualificação científica dos docentes, de um modelo formativo que não deveria ter-se mantido hegemônico por tanto tempo. E com a agravante de ter havido, entre 1999 e 2007, como se vê na figura 1 (p. 116), um crescimento exponencial de oferta promovida, sobretudo, pelo Ensino Superior Privado até raiar o absurdo.

Só no ano lectivo de 2001-2002 se deu a mudança que devia ter ocorrido mais cedo: nesse ano surgiu a Licenciatura em Ciência da Informação, iniciativa conjunta das Faculdades de Letras e de Engenharia da Universidade do Porto e a Licenciatura Bietápica em Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (bacharelato e licenciatura), da Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão do Instituto Politécnico do Porto. Apesar de simultâneas, são propostas muito diferentes: a LCI da FLUP-FEUP inscreveu-se no paradigma pós-custodial, informacional e científico, significando o singular, na expressão Ciência da Informação, a recusa de uma interdisciplinaridade equívoca e frágil em favor de uma transdisciplinaridade que confere consistência e um mínimo de identidade científica à Ciência da Informação; enquanto que a LCTDI resultou da adaptação ao grau de Licenciatura do modelo patente, na estrutura dos CECD’s, formatado pelo paradigma, ainda vigente e cada vez mais anacrônico, custodial, patrimonialista, historicista e tecnicista. Este paradigma está presente nas Licenciaturas entretanto surgidas até ao momento, não obstante a pressão positiva que o emergente está a provocar sobre os responsáveis por esses cursos.

Por fim, convém ainda sublinhar que a Declaração de Bolonha, ou o EEES, por si só, não determina a mudança de paradigma em curso. E que assim é, percebe-se pelo caso da LCI da FLUP-FEUP, que resultou de um processo participado e exigente de reflexão epistemológica, decisiva para que a mudança de paradigma seja percebida e impulsionada.

Dentro da secção Formação, foram criadas duas subsecções: 1.1 Adaptación al espacio Europeo de Educación Superior; e 1.2 – Experiências de innovación docente. Na primeira deparamos as seguintes comunicações livres: Desde la Diplomatura de Biblioteconomia y documentación hasta el grado en Información y íonumentación: una experiência de diseño curricular en la Universidad de Zaragoza pçor Maria del Carmo Agustín Lacruz et alia (p. 146-151); O ensino em ciências da informação e da documentação na Universidade de Évora por Francisco António Lourenço Vaz e Paulo Eduardo Guimarães (p. 153-170); La innovación docente de la documentación y la información en el nuevo espacio europeo de educación: la experiência de la Escuela Universitária de Enfermería, Fisioterapia y Podologia de la Universidad Complutense de Madrid por David Carabantes Alarcón (p. 171-179); Diseño y redacción de un código de buenas prácticas docentes para el título de Grado en Información y Documentación por Ana J. Sanchez Casabón et alia (Universidade de Zaragoza) (p. 181-1190); A adequação a Bolonha da formação superior na área das Ciências Documentais e da Informação na Universidade Autônoma de Lisboa por José Subtil (p. 191-199); El proceso de adaptación al EEES: la titulación de documentación de la UOC, un camino más corto por recorrer por Sandra Sanz Matos e Alexandre López Borruel (Universidad Oberta de Catalunya) (p. 201-208); A transição para Bolonha da formação pós-graduada em Ciências da Informação e da Documentação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa: balanço e perspectivas por Maria de Lurdes Rosa (p. 209-216); La convergência europea y la formación en Información y Documentación en la Universidad de Salamanca: proyectos y realidades, por José Antonio Frias, Marta de la Mano e Manuela Moro Cabero (p. 217-224); Dez anos de um curso em Gestão de Informação na U. Porto: lições aprendidas e caminho futuro por Gabriel David, Ana Azevedo e Fernanda Ribeiro (p. 225-241); Expectativas del alumno de la Diplomatura de Biblioteconomia y Documentación de la Universidad de Salamanca frente al reto del Espacio Europeo de Educación Superior, por Y. Martín González e A. B. Rios Hilário (p. 243-252): Planificación y desarrollo de un curso cero transversal secuenciado en niveles en los estudios de Grado de Información y Documentación de la Universidad de Zaragoza, por José Antonio Salvador Olivan et alia (p. 253-261); Información y Documentación entre las matérias básicas de los nuevos títulos de Grado, por Maria Victoria Numo-Moral e Vicente P. Guerreiro Bote (p. 263-270); Diseño de la asignatura “Catalogación Descriptiva” de acuerdo a los nuevos parâmetros estipulados por el EEES, por Ana Belén Hilário Rios (p. 271-280); La adaptación al Espacio Europeo de Educación Superior: la experiencia de la asignatura Estudio y formación de usuários de la Facultad de Ciencias de la Documentación de la Universidad Complutense de Madrid, por Isabel Villaseñor Rodríguez (p. 281-289); Adaptación de las asignaturas de fuentes de información en Ciencias y Humanidades y Tesauros al nuevo modelo de enseñanza-aprendizaje ECTS como plan piloto, por J. Gallego Lorenzo e Lourdes Santos de Paz (p. 291-302); e La puesta al dia del practicum en los nuevos planes de estudio del título de Grado en Información y Documentación en las facultades españolas ante las demandas del Espacio Europeo de Educación Superior, por Rosário Osuna Alarcón (p. 303-315).

Na subsecção 1.2 Experiencias de inovación docente, as comunicações livres são treze, a saber: La formación ciudadana en Biblioteconomia y Documentación como experiencia docente innovadora, por Pedro López López e Immaculada Velosillo González (Universidad Complutense Madrid) (p. 319-328); O uso de estratégias metacognitivas pelos alunos de graduação do Curso de Biblioteconomia da Universidade Federal da Paraíba/Brasil e do Curso de Licenciatura em Ciência da Informação da Universidade do Porto/Portugal, por Dulce Amélia Brito Neves et alia (p. 329-337); Visita al archivo como herramienta de aprendizaje en el âmbito universitário, por Susana Maria Ramírez Martín (Universidade Carlos III) (p. 339-346); Campus virtual y mediateca en linea: una experiencia docente innovadora en el âmbito de la documentación informativa, por Alfonso López Yepes (Universidade Complutense Madrid) (p. 347-358); Azumi: Servidor de información para la enseñanza y el aprendizaje de informática documental mediante herramientas de software libre, por J. Tramullas et alia (Universidade de Zaragoza) (p. 359-369); Información y Documentación para la titulación de Ciencias Políticas y Sociales; un proyecto de innovación docente en la Universidad Pompeu Fabra, por Joan-Isidre Badell, Mari-Carmen Marcos e Cristófol Rovira (p. 371-376); La enseñanza semipresencial de la diplomatura de Biblioteconomia y Documentación: primeros pasos de una nueva experiencia en la Universidad de León, por Blanca Rodríguez Bravo e Maria Antonia Moran Suárez (p. 377-388); Da fragmentação da informação à integração: o caso dos cursos de arquivologia, biblioteconomia e museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por Lizete Dias de Oliveira e Rafael Port da Rocha (p. 389-399); Desarrollo del proyecto Tutor en la titulación de Biblioteconomia y Documentación en la Universidad de Zaragoza, por Pilar Gay Molins et alia (p. 401-409); Ensinar com pesquisa: um olhar sobre a ação didático-pedagógica em Biblioteconomia e Ciência da Informação na Universidade de São Paulo, por Asa Fujino e Vânia Maria Alves Lima (p. 411-421); La prensa diaria cómo recurso pedagógico: una propuesta interdisciplinar, por Aurora Vall Casas e Concepción Rodríguez Parada (Universidade de Barcelona) (p. 423-435); Reconceptualización de la practica docente desde el aprendizaje activo: una propuesta didáctica basada en el aprendizaje por proyectos y la investigación grupal, por Mônica Izquierdo Alonso e José Maria Izquierdo Arroyo (Universidade de Alacalá e Universidade de Múrcia) (p. 437-446); A tecnologia da informação no ensino da Biblioteconomia: contribuição estratégica da Educação à Distância (EaD) , por Mariza Russo (Universidade Federal Rio de Janeiro) (p. 447-457).

Um elenco longo, que reflecte uma numerosa participação com predomínio óbvio e compreensível dos colegas espanhóis, mas onde é possível destacar a presença brasileira e portuguesa. Esta, apesar de pequena, sinaliza a mudança de paradigma que está a ocorrer, através de uma tensão forte, entre a permanência da formação tecnicista e profissional face à necessidade de enquadrar as profissões da Informação numa matriz científica e assumidamente pós-custodial. Foi, também, expressivo o relato de experiências didácticas e pedagógicas, bem como a apresentação dos diversos desenhos curriculares face ao desafio de Bolonha. A quase totalidade das comunicações inserem-se bem nesta primeira Secção. Mas já não direi o mesmo para a comunicação de Dulce Amélia et alia, sobre o uso de estratégias metacognitivas pelos alunos, que poderia ser incluída na Secção respeitante à Investigação.

Entrando, agora, na segunda Secção Competencias Profesionales y Mercado Laboral que abriu com uma comunicação solicitada ao Professor Michel Menou, do University College London, o qual, por razões pessoais, não pode estar presente, mas fez uma gravação audiovisual da sua intervenção. Logo no início do seu texto, em inglês, sublinha o facto de a crise na área da Library and Information Science (LIS) ser endêmica e tão antiga quanto o campo, cita Cronin (2005, p. 365): “For now, our identity crisis continues to florish” e constata a frustrante luta por uma consensual visão da informação, do seu papel na sociedade e economia, e pelo reconhecimento social dos diferentes ramos profissionais da actividade informacional. Partindo desta base, Menou coloca, provocativamente, cinco questões: a promessa da Sociedade da Informação; a omnipresença dos papeis e funções da informação; rigidez na educação e pesquisa da LIS; a implosão do campo de LIS e a perda de campos comuns; e vias para a reconstrução de um campo das “ciências da informação”. Trata-se de um texto lúcido e muito estimulante, com um diagnóstico sobre a área disciplinar e profissional, na Europa e na América do Norte, a ter em conta. A sua leitura parece-me, por isso, obrigatória. A grande idéia-chave, lançada por Menou, é a de mudança na estrutura curricular das escolas e cursos de LIS e no perfil das profissões clássicas (presas ainda às instituições tradicionais: Bibliotecas, Centros de Documentação e Arquivos), confrontadas pela Era da Informação e forçadas a evoluírem e a ocuparem o “terreno” que está a ser dominado pelos especialistas em Sistemas de Informação e em Ciências da Computação. Menou lança o alerta e aponta a via da intensificação interdisciplinar da LIS, em especial, com áreas que são próximas como, por exemplo, as Ciências da Gestão e as Cognitivas. Um alerta que, de modo algum, pode ou deve ser ignorado!

Tão pertinente comunicação é complementada, nesta Secção, com comunicações livres portadoras de indicações imprescindíveis: Qué está buscando el mercado laboral? Competencias profesionales y currículum, por Carina Rey Martín e Javier Atenas Rivera (Universidade de Barcelona) (p. 479-486); A formação em Ciência da Informação: qualificação profissional e empregabilidade. O caso da Universidade Fernando Pessoa-Porto, por Judite A. Gonçalves de Freitas e António Borges Regedor (p. 487-498); Tendências en el mercado laboral: nuevos perfiles profesionales en Información y Documentación, por Montserrat García Alsina, Eva Ortoli Espinet e Josep Cobarsi Morales (Universidade Aberta Catalunha) (p. 499-513); A cultura da (in)formação na Biblioteca Escolar em Portugal: que profissionais para o século XXI, por Maria Lucília Marques dos Santos e José António Videira Saro (BAD) (p. 515-525); Mercados laborales y perfiles por competencias del profesional de la información. Algunos estudios iberoamericanos, por Johann E. Pirela Morillo (Universidade de Zulia, Venezuela) (p. 527-539); Panorama do mercado de trabalho para arquivista: um enfoque de Brasília, por Kátia Isabelli de B. Melo de Sousa (Universidade de Brasília) (p. 541-551); Los Máster y Postgrados para la especialización profesional, nuevas capacitaciones para el sector de la Información y la Documentación, por Nuria Lloret Romero, Luisa Tolosa Robledo e Fernando Canet Centellas (Universidade Politécnica de Valência) (p. 553-563); O profissional de Ciência da Informação no mercado de trabalho: uma investigação a partir dos campos de estágio obrigatório, por Adriane Maria Arantes de Carvalho e Carolina Angélica Barbosa Saliba (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) (p. 565-579) – trata-se de um caso bastante inovador no panorama brasileiro, com interessantes afinidades com a experiência levada a cabo na Universidade do Porto; La enseñanza de la Biblioteconomia y la Documentación en el âmbito de la formación profesional ocupacional, por Carolina Calero del Rey et alia (bibliotecárias de Córdoba) (p. 581-589); Perfil, motivaciones y expectativas de los alumnos de la Diplomatura en Biblioteconomia y Documentación: un acercamiento a través de una encuesta de la Facultad de Ciencias de la Documentación de la Universidad Complutense de Madrid (Curso 2006-2007) , por Carlos Miguel Tejada Artigas (p. 591-601); e A trajectória laboral de dez mulheres bibliotecárias portuguesas através do seu testemunho autobiográfico, por Rosa Maria Rocha dos Santos Oliveira (Biblioteca Municipal de Lousada) (p. 603-615).

Na terceira Secção sobre Investigación, que tem estreita relação com a primeira, há duas comunicações que abrem e merecem aqui o devido destaque. Começo, naturalmente, pela primeira intitulada A investigação em Portugal na área da Informação/Documentação, por José António Calixto, Director da Biblioteca de Évora e docente na Universidade de Évora (p. 619-636). O autor reconhece, desde logo, que a investigação em Ciência da Informação/Documentação (CID), em Portugal, é uma realidade relativamente recente, e, embora em acentuado desenvolvimento, apresenta indícios de fragilidade tanto em termos de quantidade como de qualidade, pelo menos quando comparada com outros países. Uma fragilidade para a qual o modelo formativo adoptado e a inexistência de um corpo docente exclusivo, durante décadas, deu seu indiscutível contributo, como o próprio José António Calixto, a par de outras considerações, não hesita em reconhecer. Através de um inquérito, com considerável número de perguntas abertas e enviadas para as instituições de ensino superior, referenciadas na página da BAD, o autor fez a opção metodológica que considerou mais adequada, tendo em vista a especificidade do caso português, e confrontou-se, também, com uma questão epistemológica central, com que outros autores, anteriormente e em estudos similares, se haviam deparado: distinguir pesquisa, em CID, da não-pesquisa e de pesquisas vinculadas a outras áreas científicas; e ainda buscar um certo consenso teórico em torno da expressão Ciência da Informação. Questão central, mas considerada ainda insolúvel… E, após uma apresentação sistemática e rigorosa dos resultados, analisados através de técnicas estatísticas seimples, José António Calixto apresenta, de forma prudente, mas segura, as suas conclusões, destacando que, apesar de o ensino, o estudo e a investigação em CID terem sofrido, nos últimos vinte anos, profundas alterações em Portugal, com um aumento significativo de professores, de alunos e de projectos de investigação, o processo conducente a um novo paradigma está eivado de muitas contradições. Um processo frágil e controverso resultante, em larga medida, do modelo formativo já atrás exposto. O estímulo à investigação e à produção científica, bem como à edição de monografias, revistas e congressos ou encontros e reuniões científicas partiu da BAD e de alguma pontual iniciativa universitária. O número de Mestres e Doutorados mantém-se reduzido, mas agora em acentuada tendência de crescimento porque a oferta nacional, finalmente, se estruturou, levando vários interessados a fazer essas pós-graduações sobretudo em Inglaterra e em Espanha. E, finalmente, uma nota positiva a registar: As transformações em curso no ensino, com a generalização dos mestrados, são de molde a estimular a investigação, sendo assim de esperar o aumento da quantidade da produção teórica e melhorias substanciais na qualidade da mesma. De um modo geral, o futuro apresenta-se promissor para as diversas actividades e manifestações em CID em Portugal (p. 635).

A segunda comunicação que não posso deixar de comentar, aqui, é a de Elías Sanz Casado (Universidade Carlos III Madrid) intitulada Estrategias para fomentar la investigación en Información y Documentación (p. 637-653). Não se trata de um levantamento, por inquérito, dos actores, condições institucionais, programas e temas/problemas da investigação em CID em Espanha, mas, sobretudo, um apontamento incisivo sobre os aspectos indispensáveis ao fomento da investigação no Estado espanhol, sendo que, a partir dos anos 80, ela arrancou, a par das primeiras titulações, e ganhou uma intensidade assinalável que o autor sintetiza , com dados quantitativos, num segundo item intitulado “Algunas características de la produción y calidad de la investigación española de Biblioteconomía y Documentación,” (p. 640-646) – umas seis páginas densas e sugestivas que Elías Sanz Casado, sendo um especialista em infometria, elaborou com natural competência. Mas o objectivo central da sua intervenção consistiu, de facto, em indicar caminhos de âmbito nacional e internacional, nomeadamente da União Europeia, para candidaturas a projectos de investigação e a programas de cooperação cientifica de grande fôlego. O reforço de grupos de pesquisa, a criação de novos grupos, a necessidade de difusão dos resultados científicos feita em publicações de prestígio internacional, nomeadamente as que estejam recolhidas pela base SSCI, e o incremento da cooperação inter-institucional constituem os principais pontos conclusivos que enformam a estratégia de fomento proposta pelo autor.

Nesta terceira Secção, o número de comunicações é, comparado com o das anteriores, menor e a qualidade variável, não sendo de estranhar, dado o forte desenvolvimento das pesquisas bibliométricas/infométricas ou quantitativas, em Espanha, o predomínio claro de estudos infométricos: Da massificação da leitura à globalização da internet, por Isabel da Vale Trabucho (Universidade Aberta e E.S. Cidadela, Lisboa) (p. 655-663); Selecção e análise de fontes para o estudo dos documentos electrónicos sob perspectiva arquivística, em revistas de impacto de Ciências da Informação e Documentação (Centro de Formação de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Brasil e Bolseira da FCT) (p. 665-711); Congresos de la A.N.A.B.A.D. (1981-1999): análisis de la producción científica, por António Pulgarín Guerrero e José Luís Herrera Morillas (Universidade de Extremadura) (p. 713-720); Dimensiones para el análisis de la producción investigativa de las Escuelas de Bibliotecología y Archivología por Dionnys Peña Ocando (Universidade de Zulia, Venezuela) (p. 721-729); La visibilidad en Google Académico y Web of Science de los docentes en Biblioteconomía y Documentación de España y México, Judith Licea de Arenas e José António Gómez Hernández (Universidade de Múrcia) (p. 731-674/738); Epistemologias posmodernas en Información y Documentación, por Rosa San Segundo (Universidade Carlos III) (p. 675/739-684/748); Produção científica brasileira na temática Epistemologia da Ciência da Informação, por Gustavo Henrique A. Freire e Armando Malheiro da Silva (Universidade Federal da Paraíba, Brasil e Universidade do Porto) (685/749- 690/754); Alguns elementos teóricos sobre organización y representación del conocimiento: revisión de su fundamentación epistemológica, por Tania Peña Vera (Universidade de Zulia, Venezuela) (p. 691/755-701/765); Produción portuguesa en Biblioteconomía y Documentación. Web of Science 1990-2005, por Carlos Olmeda Gómez, Antonio Perianes Rodríguez e Maria Antonia Ovalle Perandones (Universidade Carlos III Madrid) (p. 703/767-743/775); Visualización y detección de grupos de investigación a través de coautoría, por Antonio Perianes Rodríguez, Maria Antonia Ovalle e Carlos Olmeda Gómez Perandones (Universidade Carlos III Madrid) (p. 745/777-752/784); Capacidad idiomática de los investigadores de Documentación: estudio de revistas españolas durante el período 2000-2005, por Miguel A. Sanchez Herrador e Maria Boza Puerta (Biblioteca Pública del Estado-Provincial de Córdoba e Patronato de la Alambra y Generalife) (p. 753/785-759/791); El uso de las revistas electrónicas: propuestas para una ampliación del campo de estudio por Miquel Termens (Universidade de Barcelona) (p. 761/793-771/803); e Los blogs como nuevo medio de comunicación científica, por Daniel Torres Salinas e Álvaro Cabezas Clavijo (Universidade de Navarra e Universidade de Granada) (p. 773/805-781/813). Das treze comunicações livres, que acabo de enumerar, apenas três ficam fora da vertente infométrica praticada, intensamente, por espanhóis e brasileiros de acordo com uma tendência para valorizar os resultados quantitativos, tidos como sinónimo de rigor e objectividade, o que, sabemo-lo, é redutor e ingénuo, porquanto há factores de índole qualitativa que não podem deixar de ser introduzidos na análise. Muito significativo é que tenham aparecido duas comunicações de diferentes matizes (a Rosa San Segundo de pendor teórico e a de Freire e Malheiro da Silva de pendor mais quantitativo) sobre Epistemologia da Ciência da Informação, contrariando uma outra tendência dominante na área de CID que consiste em investir muito pouco e de forma bastante tímida nas cruciais questões epistemológicas. Muito significativo é que tenham aparecido duas comunicações de diferentes matizes contrariando uma outra tendência dominante na área de CID que consiste em investir muito pouco e de forma bastante tímida nas cruciais questões epistemológicas: a de Rosa San Segundo, de pendor teórico, e a de Freire e Malheiro da Silva, de pendor mais quantitativo.

A pequena quarta Secção, sobre Cooperación y estudios comparados, podia ficar integrada na Secção anterior, porque as comunicações reflectem, do ponto de vista teórico-metodológico, um trabalho de pesquisa: Encontros de diretores e docentes de escolas de Biblioteconomia do Mercosul (1996-2007): Reflexões sobre uma trajetória de diálogo e construção educativa conjunta, por José Augusto Chaves Guimarães (Universidade Estadual Paulista, Marília, Brasil) (p. 785/817-800/832); Bibliotecas y derechos de autor: análisis comparativo de la nueva legislación de España y Portugal, por J. Carlos Fernández Molina, Maria do Carmo Dias e Maria Manuel Borges (Universidade de Granada e Universidade de Coimbra) (p. 801/833-811/843); e Análisis de la bibliografia recomendada en los planes de estudio de las diplomaturas en Biblioteconomía y Documentación y las licenciaturas en Documentación de las universidades españolas, por Maria Luísa Lascurain Sánchez, Isabel Iribarren Maestro e Elias Sanz Casado (Universidade Carlos III Madrid) (p. 813/845-825/859); e Modelo metodológico para el estudio de potencialidades en investigación y docencia, por Salvador Corbeia Portal e Maria de Jesus Madera Jaramillo (Universidade Autónoma do México) (p. 827/861-885).

A extensão que dei a este volumoso livro de Actas justifica-se pela importância que ele tem para os docentes, alunos e investigadores, especialmente em Espanha, Portugal e na América do Sul, estimulando, sem dúvida, reflexões críticas e reformulações na orientação que vem sendo dada à pesquisa em CID.

FRÍAS, José Antonio; TRAVIESO, Crispulo (eds.) – Formación, investigación y mercado laboral en información y documentación en Espana y Portugal; Formação, investigação e mercado de trabalho em informação e documentação em Espanha e Portugal. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2008. ISBN 978-84-7481-654-9. 885 (e não 850) p. (Nota: A paginação é sequencial e correcta até à página 736 e a partir daqui surge a renumeração 673 a 850).