Lino Oliveira | Departamento de Informática da Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG) do Instituto Politécnico do Porto (IPP) | Colaborador do Blogue
A adequação dos cursos ao Processo de Bolonha representa um grande desafio para as Instituições de Ensino Superior (IES) uma vez que força uma mudança de paradigma, deixando o docente de ser o detentor do conhecimento e o seu exclusivo transmissor e passando o aluno a ter a responsabilidade de conduzir o seu percurso de aprendizagem com vista ao desenvolvimento das necessárias competências. Cabe ao docente desempenhar o papel de facilitador e orientador dessa aprendizagem.
As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) assumem, neste contexto, um papel relevante, na medida em que disponibilizam meios que permitem ao aluno maior liberdade espaço/temporal na gestão da sua aprendizagem e facilitam a comunicação com o docente nos momentos não presenciais, tão importante agora que existe uma maior carga de trabalho não presencial.
Mas as mudanças no processo ensino/aprendizagem com foco nas TIC não são motivadas apenas pela imposição do Processo de Bolonha:
- Uma nova geração de estudantes ingressa agora nas IES. Vêm dotados de maiores aptidões tecnológicas, não necessariamente adquiridas no ensino secundário, mas resultantes dum convívio regular com a tecnologia, não só com os computadores e Internet, mas sobretudo com telemóveis, leitores de música e consolas de jogos.
- A democratização da banda larga tem permitido o acesso a ferramentas simples e de fácil utilização, intuitivas e disponíveis para todos gratuitamente. O sucesso de sítios web de relacionamento social como o Blogger, Wikipedia, Hi5, LinkedIn, Flickr ou YouTube são prova disso. Por isso, muitos deles têm também experiência de convívio neste tipo de redes sociais virtuais. Há, pois, necessidade de uma atitude diferente porque estes novos alunos universitários assim o exigem.
A disponibilização de conteúdos assume uma enorme relevância. Diversas técnicas têm vindo a desenvolver-se, sobretudo as derivadas do conceito de e learning, surgindo assim a utilização generalizada de plataformas de ensino a distância.
Estas plataformas, das quais o Moodle é a mais utilizada[1], permitem não só a disponibilização de conteúdos, mas também a utilização de novas ferramentas no processo de ensino/aprendizagem, a nível da interacção assíncrona (notícias, fóruns de discussão, sindicância, etc.) e síncrona (chat) com o aluno, e na sua avaliação (publicação e recepção agendada de trabalhos, testes de avaliação on-line, inquéritos).
No entanto, apesar de todas estas facilidades, tem-se constatado que os alunos não participam activamente nas actividades dinamizadas on-line, sobretudo os que estão menos motivados para a utilização das TIC. Verifica-se também que, apesar das técnicas funcionarem no âmbito de uma disciplina, não existe um modo fácil de desenvolvimento de dinâmicas interdisciplinares.
Oliveira & Moreira (2007) propõem uma plataforma integrada de sistemas de gestão de conteúdos e aplicações baseadas na Web, conhecidas como Web 2.0 (cf. figura 1), plataforma essa que utiliza este tipo de aplicações como complemento das plataformas de ensino a distância. Estas plataformas destinar-se-iam à gestão dos aspectos formais da unidade curricular relacionados com o ensino e a aprendizagem, como sejam a disponibilização de conteúdos e os meios e resultados da avaliação, enquanto que as aplicações Web 2.0, por estarem em estruturas exteriores à IES, e por isso fora do seu controlo, serviriam para explorar os aspectos motivacionais na relação com os alunos. No sentido de optimizar a sua utilização, a plataforma de ensino a distância funcionaria em conjunto com outros sistemas de gestão de conteúdos como sejam repositórios digitais.
Figura 1- Plataforma Integrada de Gestão de Conteúdos e Aplicações Web 2.0
Para testar a validade desta proposta, foi realizada uma experiência pedagógica, durante o 1º semestre do ano lectivo 2007/2008, envolvendo os alunos do último ano da Licenciatura em Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (LCTDI) da Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG) do Politécnico do Porto (IPP) (Oliveira & Moreira, 2008).
Os alunos envolvidos nesta experiência são utilizadores básicos de TIC, com reduzidos conhecimentos de aplicações de publicação na Web. Possuem, contudo, bons hábitos de pesquisa recorrendo a motores de busca e catálogos de referências bibliográficas on-line. São alunos sem perfil tecnológico mas que usam com relativa facilidade este tipo de tecnologias estando, por isso, aptos a participar nesta experiência (Jesus & Moreira, 2008b).
A experiência consistiu no desenvolvimento de uma dinâmica na elaboração dos trabalhos práticos, em conjugação com a plataforma de ensino Moodle, tal como se representa na figura 2.
Figura 2- Dinâmica desenvolvida em cada trabalho
Esta experiência durou apenas quatro meses (de Outubro de 2007 a Janeiro de 2008), tempo escasso para a obtenção de resultados concludentes. Apesar disso, revela alguns dados interessantes que são apresentados de seguida.
Como resultado da actividade nos blogues, é possível destacar:
- Maior frequência e interesse na investigação de temas relacionados com o trabalho em desenvolvimento, manifestado pela proposta frequente de leitura de novos artigos e conteúdos;
- Aumento do espírito crítico, evidenciado pela (i) colocação de questões cada vez mais pertinentes sobre notícias lidas, (ii) expressão regular de opiniões pessoais nos conteúdos das entradas publicadas ou (iii) apresentação de diferentes visões de um mesmo assunto.
Relativamente a utilização dos wikis, salienta-se:
- Maior facilidade em coordenar o trabalho do grupo, fundamental sobretudo para os grupos constituídos maioritariamente por trabalhadores estudantes.
Em simultâneo, verificou-se um maior interesse e utilização da plataforma Moodle e das suas diversas actividades, nomeadamente os fóruns de discussão, e uma maior participação nas aulas presenciais, nas quais se continuavam muitas das discussões iniciadas on-line.
Este experiência parece evidenciar que a utilização de aplicações Web 2.0 em conjunto com plataformas de ensino a distância, produz melhorias nos seguintes domínios:
- Uma maior interacção entre docentes e alunos, sem os constrangimentos por vezes presentes no relacionamento presencial;
- Maior acompanhamento e participação nas actividades das unidades curriculares, com a sensação de que o docente está presente e disponível;
- A criação de hábitos de investigação, estudo, escrita e discussão das matérias leccionadas;
- O desenvolvimento mais fácil de sinergias interdisciplinares e de trabalho de grupo.
Ou seja, plataformas de ensino a distância complementadas com ferramentas e serviços web, tais como blogues, wikis e outro software social, funcionarão como comunidades em que os participantes partilham experiências e evoluem em conjunto na aprendizagem, constituindo comunidades de aprendizagem ad-hoc (O’Hear, 2006). No fundo, isto é a evolução do e-learning para um estádio seguinte, que poderá ser designado por e‑learning 2.0 (Downes, 2005).
Para finalizar, falta referir que o modelo apresentado está a ser novamente implementado neste novo ano lectivo na mesma unidade curricular e alargado a outras unidades curriculares.
Referências
DOWNES, Stephen (2005). e-Learning 2.0. eLearn Magazine, ACM, US. Disponível em WWW:<URL:http://elearnmag.org/subpage.cfm?section=articles&article=29-1>
JESUS, Rui; MOREIRA, Fernando (2008a). eLearning and Solidarity: Myths and Realities. Proceedings of Teaching and Learning 2008. Aveiro, Portugal, pages unknown to the date (conference to be held in May, 2008).
JESUS, Rui; MOREIRA, Fernando (2008b). E-skills are Really Critical to E-learning Success? Proceedings of IADIS International Conference e-Learning, Amsterdam, Holanda, Julho, 2008
O’HEAR, S. (2006). E-learning 2.0 – How Web technologies are shaping education. ReadWriteWeb. Disponível em WWW: <URL:http://www.readwriteweb.com/archives/e-learning_20.php>
OLIVEIRA, Lino; MOREIRA, Fernando (2007). Plataformas de Conteúdos e Aplicações Web 2.0 – Impacto da sua Utilização no Processo de Ensino/Aprendizagem em Instituições de Ensino Superior. Actas da 2ª Conferência Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação. Porto, Junho de 2007.
OLIVEIRA, Lino; MOREIRA, Fernando (2008). Aplicações da Web Social como Complemento da Aprendizagem no Ensino Superior. Actas da 3ª Conferência Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação. Ourense, Espanha, Junho de 2008
[1] Dados do Projecto “LMS2 – Estudo de Base e Enquadramento de Requisitos para a Prospectiva de Solução para Plataformas de Formação a Distância”, Observatório do E-Learning em Portugal (http://www.elearning-pt.com/lms2/)



3 Comentários
25 Outubro, 2008 ás 12:58 pm
Prezado Lino,
muito interessante o artigo. Estamos bem empenhados no uso da Web 2.0 no ensino.
Temos experimentado algo no nosso curso de MBA de Gestão de Conhecimento no Rio de Janeiro.
Temos uma ferramenta http://www.icox.org.br que talvez se adeque melhor do que o Moodle.
Outro projeto que estamos desenvolvendo e podemos discutir melhor seria a criação de uma rede social de professores para troca de experiência.
Estamos iniciando este projeto, veja mais em:
http://cnepomuceno.wordpress.com/2008/10/22/professor-20-projeto-no-forno/
Vou ler mais sobre os links que você passou e gostaria de trocar mais experiências com vocês sobre o assunto.
Abraços,
Carlos Nepomuceno.
2 Novembro, 2008 ás 9:40 pm
Caro Carlos
Obrigado pelo seu comentário. Já registei os seu links para os consultar com cuidado.
Estou sempre disponível para troca de experiências, sejam elas no âmbito das TIC e da Web (2.0 ou outra
), em geral ou na sua aplicação na Educação. A aplicação de novos métodos de ensino/aprendizagem é uma das minhas paixões!
Se tiver dificuldade em encontrar alguns dos artigos que referi, contacte-me. Terei todo o gosto em lhos enviar.
As redes sociais será um tema que iremos abordar numa próxima experiência na Licenciatura de CTDI, no âmbito da investigação que fazemos no Grupo PIGeCo (http://pigeco.wordpress.com). Pensamos usar a plataforma baseada na Web Ning.com (http://www.ning.com).
O fenómeno do relacionamento social nestas novas plataformas da web social, sobretudo por parte dos jovens, merece ser estudado e aplicado convenientemente no processo de ensino. As potencialidades deste meio onde os jovens se sentem tão à-vontade, podem e devem ser exploradas para que os jovens participem mais e melhor nas actividades curriculares e o façam com satisfação, para delas poderem tirar maiores benefícios. Isto é, sobretudo, importante neste momento em que, em Portugal e no resto da Europa, o Ensino Superior vive a era do Processo de Bolonha, onde os estudantes são os principais responsáveis por gerirem o seu percurso académico.
Relativamente, à utilização da rede social para relacionamento entre professores, existem algumas na plataforma Ning, em inglês mas também em português. Ficam aqui alguns exemplos de que faço parte:
- Classroom 2.0 (http://classroom20.ning.com)
- Ning in Education (http://education.ning.com/)
- Interactic 2.0 (http://interactic.ning.com/)
- College 2.0 (http://college2.ning.com/)
- School 2.0 (http://school20.ning.com/)
- My Learning Space (http://mylearningspace.ning.com/)
- Horizon Project (http://horizonproject2008.ning.com/)
A plataforma Ning tem inúmeras funcionalidades e potencialidades, para além de ser gratuita e muito fácil de implementar.
Para finalizar, poderá encontrar mais informação no blogue que mantenho sobre Web 2.0 (http://web20pt.wordpress.com) ou através dos meus links no delicious (http://delicious.com/linooliveira).
Cumprimentos.
Lino Oliveira
31 Dezembro, 2008 ás 4:34 pm
[...] Foi publicada a minha primeira contribuição para o Tema do Mês. O artigo intitula-se “Ferramantas Web 2.0 no Ensino Superior: um desafio na Era Bolonha” e pode ser lido aqui. [...]