A automatização da referência bibliográfica

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Susana Martins | Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão, Instituto Politécnico do Porto | Assistente | colaboradora do blogue

Todos sabemos que a automatização dos serviços bibliotecários arrancou nos anos 70 e o formato MARC foi o grande espelho desta inovação. Actualmente a automatização bibliotecária, embora generalizada, pressupõe, ainda, o levantar de algumas questões que se prendem, essencialmente, com aspectos ligados á:

  • disseminação e disponibilização da informação ao público,
  • plano tecnológico da nossa instituição,
  • orçamento.

Para que um bom plano de automatização seja delineado será então necessário socorrermo-nos de dados estatísticos, em particular demográficos, identificarmos os constrangimentos ambientais e de contexto, avaliar a colecção, o orçamento e o equipamento disponível.

Como referido anteriormente, a automatização é uma realidade generalizada, embora não cubra ainda, a totalidade dos serviços de informação a nível nacional. O grande pró da automatização dos serviços é a relação custo-benefício que sai efectivamente valorizada. De notar que a automatização dos serviços faz-se a três níveis:

  1. sistema integrado de gestão
  2. desenvolvimento de produtos
  3. sistema de email e internet

O primeiro representa o core business do serviço de informação e permitirá gerir actividades como as aquisições, o serviço de referência, o serviço de empréstimo etc. Os utilizadores poderão aceder à distância, ou presencialmente, a todo o catálogo e proceder a reservas de documentos e a renovação dos empréstimos. Os utilizadores do tradicional catálogo de fichas ficarão muito satisfeitos com a rapidez de resposta deste sistema a uma pesquisa.

O segundo pressupõe que a instituição crie os seus próprios produtos a partir do material de que dispõe e da tecnologia que tem ao seu alcance. Poderão ser desenvolvidos cursos de auto-formação de utilizadores, boletins informativos e outro tipo de materiais que pressupõem a formação e autonomização do utilizador, poupando, a médio prazo, o seu tempo e também o tempo do profissional, libertando-o para outras tarefas. Outro aspecto importante é a criação e manutenção de cópias de segurança da base de dados inerente a todo o funcionamento da organização.

Por fim, o terceiro aspecto pressupõe uma diminuição de custos e de tempo. Será mais barato e mais rápido enviar, via email, informação relativa à Difusão Selectiva de Informação, lembretes aos utilizadores e comunicar com as editoras. As relações de colaboração, nomeadamente na troca de registos sairão, também elas, beneficiadas com o uso desta tecnologia.

Um dos serviços inerentes a qualquer unidade documental é o Serviço de Referência. É aqui que o utilizador encontra o apoio que necessita para desenvolver a sua pesquisa. O serviço de referência poderá oferecer dois tipos de assistência:

  • Assistência directa – procura de informação, apoio direccional, consultoria nas pesquisas efectuadas;
  • Assistência indirecta – selecção de materiais, preparação de bibliografias, selecção de fontes Web.

Foi já referido que as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) possibilitaram a criação de recursos que permitem a autonomização do utilizador pelo que, inevitavelmente, também o Serviço de Referência será afectado pela existência desse tipo de recursos. Vários podem ser os aspectos enumerados pelo que esta intervenção cingir-se-á apenas à referenciação bibliográfica.

Existem normas de referenciação internacionais, nacionais e próprias de áreas científicas ou de associações e de revistas cientifico-técnicas. Se o profissional da informação tem obrigação de conhecer algumas dessas normas, o utilizador provavelmente desconhecerá a sua totalidade. Por serem muitas as normas disponíveis, criar material de auto-formação que englobe a totalidade das normas de referenciação é uma tarefa quase impossível. Será lógico que se disponibilize formação para as normas portuguesas de referenciação bibliográfica e, dependendo do tipo de serviço de informação, para outras normas específicas das áreas científicas cobertas pela organização.

No entanto, todos já nos deparamos com a necessidade de criar bibliografias e de inserir citações em textos escritos. Até há pouco tempo, todas essas tarefas eram efectuadas manualmente o que exigia uma enorme atenção a pequenos detalhes que facilmente poderiam escapar e assim incluir “gralhas” e mesmo erros. Com o advento das TIC, surgem várias aplicações que possibilitam aos seus utilizadores criar bases de dados de referências bibliográficas e, a partir daí, facilmente gerar e gerir bibliografias e inserir citações no texto.

Actualmente existem várias hipóteses válidas, sejam comerciais ou opensource, para a gestão de bibliografia. Muitos de nós começaram por usar o Procite ou o Endnote, soluções pagas, com um interface muito amigável e com inúmeras possibilidades que efectivamente poupam o tempo do utilizador. Para quem usa o Office 2007, o próprio Word já inclui um gestor de referências bibliográficas no separador ”referências”.

As soluções gratuitas já existem há algum tempo e talvez as primeiras a serem usadas tenham sido o JabRef e o BibDesk. Hoje em dia podemos aceder a outro tipo de aplicações opensource, como é o caso do Zotero que funciona como uma extensão do Mozilla Firefox. Assim, para poder usar o Zotero, terá que usar como Web browser o Firefox. Isto não deverá constituir um problema já que o Firefox está disponível gratuitamente. Depois de instalar o Firefox deverá descarregar e instalar o Zotero. A sua utilização é bastante fácil e o seu interface é também ele muito agradável.

Na realidade existem variadíssimas soluções neste campo e através deste link: http://en.wikipedia.org/wiki/Comparison_of_reference_management_software podem aceder a um artigo muito interessante onde se comparam as várias soluções existentes no âmbito da referenciação bibliográfica.

Software open source – o copo meio cheio ou meio vazio?

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Susana Martins e Lino Oliveira | Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão| Instituto Politécnico do Porto | colaboradores do blogue

Actualmente a maioria das instituições depende das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) para proceder à gestão diária da sua actividade. Para Castells (2003) a emergência de um novo paradigma tecnológico (…) permite que a própria informação se torne num produto do processo de produção.

Castells (2002) entende que, neste século, o panorama tecnológico é caracterizado por um novo paradigma, em que a informação sustenta e é sustentada pelas novas tecnologias e no alcance de penetração destas numa lógica de redes.

De facto, no actual contexto, a utilização das TIC e, concretamente de Software Open Source (SOS), é tida como uma realidade, algo exequível e ao alcance de muitos embora, no caso específico das unidades de informação, a sua maioria, recorra a software comercial. Constata-se que no mundo das Bibliotecas, Centros de Documentação e Arquivos, apesar de haver algum conhecimento sobre o assunto, a utilização de SOS nestes domínios ainda não é visível a “olho nú”, i.e., ainda não está de tal modo disseminada que faça com que estas instituições usem esse tipo de software para gerir as suas tarefas diárias.

Os sistemas de gestão integrada são ainda fruto de contactos comerciais que, para a maioria dos responsáveis destas instituições, pressupõem uma maior segurança na resolução de problemas, embora à custa de contratos de manutenção.

Ora, a nova vaga de bibliotecários, documentalistas e arquivistas, os profissionais da informação do séc. XXI dos quais fazem parte os alunos da Licenciatura em Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação, tem oportunidade de adquirir competências tecnológicas que lhes permitem desempenhar funções de gestores de informação e de sistemas de informação, competências essas úteis para implementar de forma sólida, a utilização de SOS a custos muito reduzidos.

Para Zargaryan (2007), o verdadeiro valor do SOS é reconhecido através dos inúmeros projectos onde este tipo de software é usado para facultar pontos de acesso à comunidade, construir iniciativas de negócio e desenvolver a literacia informacional. O SOS é um dos melhores exemplos de desenvolvimento e produção aberta, colaborativa, internacional e, inevitavelmente, tem gerado muito interesse em todo o mundo, desde departamentos governamentais, passando pelo sector do negócio, académico e de investigação.

Mas há que atender que open source não é sinónimo de free software. As grandes diferenças encontram-se na ideologia, quase como se tratasse de dois partidos políticos.

Para a Open Source Initiative (OSI), open source é um método de desenvolvimento de software que combina o poder da distribuição em modo “peer review” com a transparência em todo o processo de desenvolvimento. O objectivo do open source é aumentar a qualidade, a fiabilidade, a flexibilidade, a custos reduzidos eliminando a postura predatória do intuito comercial.

Para a GNU – General Public License, o software livre pressupõe a liberdade de utilização, execução, cópia, distribuição, estudo e modificação de modo a melhorar o software. Para os utilizadores, diz respeito a quatro tipos de liberdade:

0.  A liberdade de correr o programa para qualquer fim;

1. A liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo às suas necessiddes (o acesso ao código fonte é uma condição sine qua non para este princípio);

2.  A liberdade de redistribuir cópias de modo a ajudar os demais;

3. A liberdade de melhorar o programa e publicar/disponibilizar as alterações aos demais de modo a que a comunidade possa beneficiar com isso (o acesso ao código fonte é uma condição sine qua non para este princípio).

Esclarecidas as diferenças entre open source e software livre, é conveniente que se conheçam os aspectos positivos e negativos do SOS. Assim, para Kwok (sd) este tipo de software deve ser analisado à luz de uma série de princípios base tais como:

  • Custo,
  • Funcionalidade/Usabilidade,
  • Sustentabilidade.
Open Source Prós Contras
Custo O acesso ao código fonte permite aos programadores melhorar e modificar o software. Isto pode traduzir-se numa evolução mais acelerada do produto o que culmina numa redução de custos. Existem custos ocultos, p.ex., os programadores têm que estar familiarizados com o software e com a integração de SOS com software proprietário, podendo ser necessário o  recurso a “middleware” (software intermédio), o que aumenta os custos. Novatos não estarão preparados para lidar com bugs.

Por vezes há necessidade de pagar para aceder ao serviço “apoio ao cliente”, a documentação ou manuais.

Funcionalidade/ Usabilidade As funcionalidades começam a assimilar-se às dos softwares proprietários, isto porque a comunidade global de programadores e utilizadores têm algo a dizer no que diz respeito ao desenvolvimento do software. Existem bugs e problemas de usabilidade. Os patches são vistos pelos utilizadores como um ponto negativo. Os utilizadores acostumados a certos interfaces podem não se habituar a interfaces diferentes pois isso implicaria uma re-aprendizagem.
Sustentabilidade Um dos aspectos mais louváveis dos SOS é a colaboração contínua e o esforço e dedicação dos programadores. O seu desenvolvimento é feito com base num esforço colaborativo de toda a comunidade de interessados. Fazem-no por gosto pessoal e essa é a melhor motivação de todas. Os maiores desafios dos SOS são a compatibilidade, a gestão do projecto e o apoio ao cliente/utilizador. Conseguirão, a estes níveis, os SOS competir com os softwares comerciais?

Os SOS crescem de contribuições da comunidade online, os recursos são limitados. E há a questão da gestão a longo prazo do software.

Por se basearem numa lógica de desenvolvimento colaborativo, este tipo de software está disponível em repositórios digitais. Existem vários repositórios de SOS que podem ser encontrados nos seguintes endereços:

Existem até directórios onde é possível encontrar o substituto open source de um determinado produto comercial (Open Source as Alternative ).

Estão ainda disponíveis, aplicações baseadas na Web, conhecidas por Web 2.0. Muitas delas podem ser descobertas no directório “Web 2.0 in Education UK“. As inúmeras ferramentas disponíveis estão organizadas por temas.

Este tipo de software, para as instituições em causa, pode ter aplicabilidade nos seguintes domínios:

  • Kits de instalação
  • Sistemas Integrados de Bibliotecas
  • Gestao de colecções – sistemas de gestão de repositórios
  • Portais
  • Ferramentas de pesquisa
  • Link Resolvers
  • Aplicações office
  • Ferramentas Internet
  • Sistemas de Gestão de Cursos
  • Publicação de conteúdos
  • Manipulação de imagem
  • Ferramentas de autorização/autenticação

Ficam aqui alguns exemplos de SOS de interesse para algumas áreas de Bibliotecas, Centros de Documentação e Arquivos (Tramullas, 2005):

Obviamente que a garantia de qualidade é uma premissa de extrema importância para qualquer instituição. As perguntas: aquele software é de confiança? É suficientemente maduro para satisfazer as necessidades da minha instituição? São inevitáveis na cabeça de qualquer responsável de serviço já que no caso do SOS não há uma empresa a quem pedir satisfações. Mas, existe actualmente, pela mão da plataforma A framework for evaluation open source software, a Business Readiness Rating (BRR) que se apresenta como uma proposta normativa para a avaliação (rating) de Software Open Source. Esta normativa pretende facultar um meio para que a comunidade possa avaliar este tipo de software de modo normalizado, facultando a comparação de resultados. Está disponível em http://www.openbrr.org/wiki/images/d/da/BRR_whitepaper_2005RFC1.pdf

Dentro de pouco tempo será expectável que, a nível profisisonal, no panorama nacional mais se aplique e fale sobre software open source na área da Informação.

Bibliografia

Business Readiness Rating. Open BRR [em linha]. [S.l.:s.n.] (revisto em 8 de Maio de 2007) [consult. Em 19 Nov. 2008] Disponível em URL: http://www.openbrr.or /wiki/index.php/Home

CASTELLS, Manuel – O fim do milénio. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. ISBN 972-31-1055-5.

CASTELLS, Manuel – A sociedade em rede. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. ISBN 972-31-0984-0.

GNU. The GNU Operating System [em linha]. [S.l.: s.n.] (revisto em 06 de Maio de 2008) [consult. Em 19 Nov. 2008] Disponível em URL: http://www.gnu.org/home.pt-br.html

KWOK, Danny. The pros and cons of open source software. Helium [em linha]. 2008. [consult. 19 Nov. 2008]. Disponível em URL: http://www.helium.com/items/847241-the-pros-and-cons-of-open-source-software

TRAMULLAS, Jesús – Software libre para gestión de recursos de información digital. Actas da II Conferencia Internacional de Software Libre. Mérida, Espanha. 2005. pp. 346-356

ZARGARYAN, Tigran – Open-source software: pros and cons. European Library Automation Group (ELAG) [em linha]. 2007. [consult. 19 Nov. 2008] .Disponível em URL: http:// http://elag2007.upf.edu/workshops/zargaryan.pdf

A utilização de software de gestão documental open source pelas unidades de informação

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Olinda Cardoso | Técnica Superior de Arquivo | Arquivo Distrital do Porto | Colaboradora do blogue

Implementar um software de gestão documental não é um processo desintegrado, avulso ou simples. Pelo contrário, deve ser sempre precedido pela concepção e implementação de um sistema de arquivo integrado e reflectido, em conformidade com a NP 4438, que poderá culminar (ou não!) com a aquisição de um software devidamente ajustável às necessidades únicas da instituição em questão.

É com alguma leviandade e falta de conhecimento que algumas instituições têm aderido ao dito Plano Tecnológico, o qual pressupõe bem mais do que a mera aquisição de um software de gestão documental, seja ele dispendioso ou de acesso livre (open source).

A questão da integridade, fidedignidade ou autenticidade do documento de arquivo raramente é equacionada e o papel do arquivista é reduzido (isto na melhor das hipóteses) à entrega de uma proposta de classificação (que nem tem de ser um plano “hierárquico, lógico e consistente”, podendo até ser um mero “classificador”). Lamentavelmente, as instituições deixam-se arrebatar por essas propostas milagrosas (mas inconsistentes!) de digitalização de correspondência, com workflows desajustados, e, quando submetidas a auditorias, deparam-se com questões às quais não sabem responder e depressa abandonam o “esquema tecnológico”, voltando comodamente às raízes.

Ora todo o projecto mal começado tende a terminar mal. Convém, por conseguinte, precaver-se de um final anunciado com um esquema de implementação bem estruturado, coordenado por uma equipa multidisciplinar constituída sempre pelos responsáveis dos serviços administrativos, da informática e do arquivo. Esta deverá ser a equipa nuclear, podendo ainda entrar no rol os responsáveis das áreas da modernização administrativa, da qualidade e até um jurista.

As soluções open source podem parecer vantajosas à primeira vista, mas são raras as vezes em que são completamente gratuitas, implicando sempre despesas avultadas com a manutenção e adequação das mesmas à realidade institucional.

A Direcção-Geral de Arquivos colocou em linha em Dezembro de 2006 o GUIA PARA A ELABORAÇÃO DE CADERNOS DE ENCARGOS E AVALIAÇÃO DE SOFTWARE DE SISTEMAS ELECTRÓNICOS DE GESTÃO DE ARQUIVOS”, que se assume como uma ajuda preciosa para a implementação de um projecto desta natureza.

Alertando-nos para aspectos fundamentais, este guia pode ser um válido instrumento de trabalho que nos permite salvaguardar algumas situações que poucas empresas e poucos softwares têm em conta: a inviolabilidade da informação, a conversão e a migração de dados, a segurança, o controlo de acessos, a pesquisa e recuperação da informação, os requisitos de metainformação, a preservação digital, a avaliação documental (retenção e destino), entre tantos outros.

Outras questões também dignas de referência serão a salvaguarda da legalidade (um documento de arquivo é também uma prova e um testemunho!), a problemática da assinatura digital e a importância de um plano de formação e de acompanhamento intensivo e vocacionado para todos os funcionários de uma instituição.

Open source ou não, a verdade é que, em arquivo, não há soluções perfeitas, apenas as há adequadas e elas não vêm assim: são sempre alteradas, ponderadas, ajustadas, melhoradas, reconsideradas… Desde que esta premissa seja salvaguardada e o software o permita…

Ferramentas Web 2.0 no Ensino Superior

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Susana Martins | Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão, Instituto Politécnico do Porto, Assistente | Colaboradora do blogue

Actualmente podemos assumir que o Ensino Superior tem pela frente um grande desafio, uma grande mudança. Perante o cenário de uniformização do Ensino Superior no espaço europeu, consequência da Declaração de Bolonha, alterações de paradigma foram levadas a cabo. Os cursos foram adequados à luz da referida Declaração e seus princípios, cargas horárias, metodologias de ensino e de avaliação sofreram alterações.

A mudança foi e é imensa, não só para o corpo docente, mas também para o corpo discente. Velhos do Restelo acordam perante cenários como este, questionando a mudança, a ela resistindo. Tanto os professores como os estudantes, na sua maioria, haviam-se acostumado a um cenário onde os papéis clássicos do Processo Ensino-Aprendizagem (PEA) estavam bem definidos e as suas fronteiras eram pacíficas: o professor debitava a matéria e o aluno recebia a matéria.

Ora, o advento da Internet proporcionou uma alteração deste cenário conduzindo, actualmente, a uma autêntica revolução social que em tudo influência a vida do Ensino Superior.

Na década de 90, a Web 1.0 personificou uma mudança no modo como as pessoas comunicavam, se divertiam, se organizavam e até no modo como trabalhavam. A Web 2.0 levou este conceito bem mais longe, ao ponto de a revista “Time” ter votado, em 2006, “Tu” como a pessoa do ano. “Tu” seriam os utilizadores das novas tecnologias, das ferramentas e aplicações Web 2.0 que abriam as portas para uma nova dimensão a processos tradicionais. Esta dinâmica estava agora patente em expressões como “Web participativa” ou “autoria colectiva”.

Estas alterações sociais acabaram por, inevitavelmente, reflectir no Ensino Superior pois os seus alunos, actualmente, são o “Tu” votados pela revista Time, pessoas habituadas a usar o computador e a Internet desde muito novos, uma massa info-incluída

Perante tal situação, resta apenas ao Ensino Superior usar a experiência que os seus estudantes têm em ferramentas e aplicações informáticas, tanto a nível de ofimática – processadores de texto p.ex., como a nível de lazer – Flickr, Youtube, Blogues etc. e transpô-la para o seu core business – o ensino.

Os actuais estudantes do Ensino Superior sentem um grande à-vontade na utilização de sítios web como Blogger, Wikipedia, Hi5, Flickr ou YouTube onde usam ferramentas simples, intuitivas e disponíveis para todos.

Assim, perante o cenário actual, podemos pensar que a utilização de ferramentas Web 2.0 no PEA só poderá trazer vantagens:

  • Facilidade de comunicação entre os dois principais intervenientes do PEA – o mundo virtual liberta os estudantes de eventuais constrangimentos, facilitando a sua expressão através da utilização de um interface com o qual os estudantes se sentem à vontade,
  • Maior participação escrita, criação de hábitos de opinião, submissão dos textos à opinião dos pares (o estudante escreve e opina acerca do texto do colega),
  • Pesquisa colectiva e trabalho colaborativo tendem a aumentar o interesse do estudante pelas matérias abordadas,
  • Participação presencial e virtual fomenta o diálogo e discussão de temas nas aulas e aumenta a confiança do estudante.

Actualmente, o ensino de qualidade não se sustenta, apenas, da actividade lectiva presencial. Tem que haver um aporte virtual que possibilite ao docente a criação de espaços de debate onde os estudantes possam, livres de constrangimentos, participar e colaborar no PEA. Só assim é possível “apanhar o comboio” e integrar os estudantes no PEA tal como preconizado pela Declaração de Bolonha.

Referências

Collis, B. ;  Moonen, J. – Web 2.0 tools and processes in higher education: quality perspectives – Educational Media International. 2008. [consult. 06 Out. 2008]. Disponível em WWW: < URL http://www.informaworld.com/smpp/section?content=a793858056&fulltext=713240928>

Ware, M. – Web 2.0 for higher education « putting down a marker. 2007. [consult. 06 Out. 2008]. Disponível em WWW: < URL http://mrkwr.wordpress.com/2007/06/22/web-20-for-higher-education/>

Weller, Martin -SocialLearn: Bridging the Gap Between Web 2.0 and Higher Education. E-Literate. 2008. [consult. 06 Out. 2008]. Disponível em WWW: <URL http://mfeldstein.com/sociallearn-bridging-the-gap-between-web-20-and-higher-education/>

Ferramentas Web 2.0 no Ensino Superior: um desafio na Era Bolonha

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Lino Oliveira | Departamento de Informática da Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG) do Instituto Politécnico do Porto (IPP) | Colaborador do Blogue

A adequação dos cursos ao Processo de Bolonha representa um grande desafio para as Instituições de Ensino Superior (IES) uma vez que força uma mudança de paradigma, deixando o docente de ser o detentor do conhecimento e o seu exclusivo transmissor e passando o aluno a ter a responsabilidade de conduzir o seu percurso de aprendizagem com vista ao desenvolvimento das necessárias competências. Cabe ao docente desempenhar o papel de facilitador e orientador dessa aprendizagem.

As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) assumem, neste contexto, um papel relevante, na medida em que disponibilizam meios que permitem ao aluno maior liberdade espaço/temporal na gestão da sua aprendizagem e facilitam a comunicação com o docente nos momentos não presenciais, tão importante agora que existe uma maior carga de trabalho não presencial.

Mas as mudanças no processo ensino/aprendizagem com foco nas TIC não são motivadas apenas pela imposição do Processo de Bolonha:

  • Uma nova geração de estudantes ingressa agora nas IES. Vêm dotados de maiores aptidões tecnológicas, não necessariamente adquiridas no ensino secundário, mas resultantes dum convívio regular com a tecnologia, não só com os computadores e Internet, mas sobretudo com telemóveis, leitores de música e consolas de jogos.
  • A democratização da banda larga tem permitido o acesso a ferramentas simples e de fácil utilização, intuitivas e disponíveis para todos gratuitamente. O sucesso de sítios web de relacionamento social como o Blogger, Wikipedia, Hi5, LinkedIn, Flickr ou YouTube   são prova disso. Por isso, muitos deles têm também experiência de convívio neste tipo de redes sociais virtuais. Há, pois, necessidade de uma atitude diferente porque estes novos alunos universitários assim o exigem.

A disponibilização de conteúdos assume uma enorme relevância. Diversas técnicas têm vindo a desenvolver-se, sobretudo as derivadas do conceito de e learning, surgindo assim a utilização generalizada de plataformas de ensino a distância.

Estas plataformas, das quais o Moodle é a mais utilizada[1], permitem não só a disponibilização de conteúdos, mas também a utilização de novas ferramentas no processo de ensino/aprendizagem, a nível da interacção assíncrona (notícias, fóruns de discussão, sindicância, etc.) e síncrona (chat) com o aluno, e na sua avaliação (publicação e recepção agendada de trabalhos, testes de avaliação on-line, inquéritos).

No entanto, apesar de todas estas facilidades, tem-se constatado que os alunos não participam activamente nas actividades dinamizadas on-line, sobretudo os que estão menos motivados para a utilização das TIC. Verifica-se também que, apesar das técnicas funcionarem no âmbito de uma disciplina, não existe um modo fácil de desenvolvimento de dinâmicas interdisciplinares.

Oliveira & Moreira (2007) propõem uma plataforma integrada de sistemas de gestão de conteúdos e aplicações baseadas na Web, conhecidas como Web 2.0 (cf. figura 1), plataforma essa que utiliza este tipo de aplicações como complemento das plataformas de ensino a distância. Estas plataformas destinar-se-iam à gestão dos aspectos formais da unidade curricular relacionados com o ensino e a aprendizagem, como sejam a disponibilização de conteúdos e os meios e resultados da avaliação, enquanto que as aplicações Web 2.0, por estarem em estruturas exteriores à IES, e por isso fora do seu controlo, serviriam para explorar os aspectos motivacionais na relação com os alunos. No sentido de optimizar a sua utilização, a plataforma de ensino a distância funcionaria em conjunto com outros sistemas de gestão de conteúdos como sejam repositórios digitais.

 

Figura 1- Plataforma Integrada de Gestão de Conteúdos e Aplicações Web 2.0

Para testar a validade desta proposta, foi realizada uma experiência pedagógica, durante o 1º semestre do ano lectivo 2007/2008, envolvendo os alunos do último ano da Licenciatura em Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação (LCTDI) da Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão (ESEIG) do Politécnico do Porto (IPP) (Oliveira & Moreira, 2008).

Os alunos envolvidos nesta experiência são utilizadores básicos de TIC, com reduzidos conhecimentos de aplicações de publicação na Web. Possuem, contudo, bons hábitos de pesquisa recorrendo a motores de busca e catálogos de referências bibliográficas on-line. São alunos sem perfil tecnológico mas que usam com relativa facilidade este tipo de tecnologias estando, por isso, aptos a participar nesta experiência (Jesus & Moreira, 2008b).

A experiência consistiu no desenvolvimento de uma dinâmica na elaboração dos trabalhos práticos, em conjugação com a plataforma de ensino Moodle, tal como se representa na figura 2.

Figura 2- Dinâmica desenvolvida em cada trabalho

Esta experiência durou apenas quatro meses (de Outubro de 2007 a Janeiro de 2008), tempo escasso para a obtenção de resultados concludentes. Apesar disso, revela alguns dados interessantes que são apresentados de seguida.

Como resultado da actividade nos blogues, é possível destacar:

  • Maior frequência e interesse na investigação de temas relacionados com o trabalho em desenvolvimento, manifestado pela proposta frequente de leitura de novos artigos e conteúdos;
  • Aumento do espírito crítico, evidenciado pela (i) colocação de questões cada vez mais pertinentes sobre notícias lidas, (ii) expressão regular de opiniões pessoais nos conteúdos das entradas publicadas ou (iii) apresentação de diferentes visões de um mesmo assunto.

Relativamente a utilização dos wikis, salienta-se:

  • Maior facilidade em coordenar o trabalho do grupo, fundamental sobretudo para os grupos constituídos maioritariamente por trabalhadores estudantes.

Em simultâneo, verificou-se um maior interesse e utilização da plataforma Moodle e das suas diversas actividades, nomeadamente os fóruns de discussão, e uma maior participação nas aulas presenciais, nas quais se continuavam muitas das discussões iniciadas on-line.

Este experiência parece evidenciar que a utilização de aplicações Web 2.0 em conjunto com plataformas de ensino a distância, produz melhorias nos seguintes domínios:

  • Uma maior interacção entre docentes e alunos, sem os constrangimentos por vezes presentes no relacionamento presencial;
  • Maior acompanhamento e participação nas actividades das unidades curriculares, com a sensação de que o docente está presente e disponível;
  • A criação de hábitos de investigação, estudo, escrita e discussão das matérias leccionadas;
  • O desenvolvimento mais fácil de sinergias interdisciplinares e de trabalho de grupo.

Ou seja, plataformas de ensino a distância complementadas com ferramentas e serviços web, tais como blogues, wikis e outro software social, funcionarão como comunidades em que os participantes partilham experiências e evoluem em conjunto na aprendizagem, constituindo comunidades de aprendizagem ad-hoc (O’Hear, 2006). No fundo, isto é a evolução do e-learning para um estádio seguinte, que poderá ser designado por e‑learning 2.0 (Downes, 2005).

Para finalizar, falta referir que o modelo apresentado está a ser novamente implementado neste novo ano lectivo na mesma unidade curricular e alargado a outras unidades curriculares.

Referências

DOWNES, Stephen (2005). e-Learning 2.0. eLearn Magazine, ACM, US. Disponível em WWW:<URL:http://elearnmag.org/subpage.cfm?section=articles&article=29-1>

JESUS, Rui; MOREIRA, Fernando (2008a). eLearning and Solidarity: Myths and Realities. Proceedings of Teaching and Learning 2008. Aveiro, Portugal, pages unknown to the date (conference to be held in May, 2008).

JESUS, Rui; MOREIRA, Fernando (2008b). E-skills are Really Critical to E-learning Success? Proceedings of IADIS International Conference e-Learning, Amsterdam, Holanda, Julho, 2008

O’HEAR, S. (2006). E-learning 2.0 – How Web technologies are shaping education. ReadWriteWeb. Disponível em WWW: <URL:http://www.readwriteweb.com/archives/e-learning_20.php>

OLIVEIRA, Lino; MOREIRA, Fernando (2007). Plataformas de Conteúdos e Aplicações Web 2.0 – Impacto da sua Utilização no Processo de Ensino/Aprendizagem em Instituições de Ensino Superior. Actas da 2ª Conferência Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação. Porto, Junho de 2007.

OLIVEIRA, Lino; MOREIRA, Fernando (2008). Aplicações da Web Social como Complemento da Aprendizagem no Ensino Superior. Actas da 3ª Conferência Ibérica de Sistemas e Tecnologias de Informação. Ourense, Espanha, Junho de 2008


[1] Dados do Projecto “LMS2 – Estudo de Base e Enquadramento de Requisitos para a Prospectiva de Solução para Plataformas de Formação a Distância”, Observatório do E-Learning em Portugal (http://www.elearning-pt.com/lms2/)

Arquivos/bibliotecas e o acesso à cultura e à informação, na era da Internet

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Susana Martins | Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão | Instituto Politécnico do Porto | Colaboradora do blogue

Os Arquivos/bibliotecas nem sempre se pautaram pelo acesso fácil à cultura e à informação. Começaram por ser frequentados apenas por uma elite, que a eles se socorria sempre que necessitava. As mudanças sociais, impulsionadas pela alteração dos sistemas económico e financeiro, vieram alterar essa situação. Em inícios do séc. XIX surgem os gabinetes de leitura pública, facultando o acesso mais democratizado à informação.
Todos sabemos que ao longo do séc. XX a evolução das tecnologias da informação e comunicação possibilitou que se assistisse a um boom informacional, não só no próprio acesso à informação mas também pelo facto de que o papel de autor deixa de estar tão distante como estava outrora. Estávamos perante um cenário de democratização e facilitação do acesso à informação e o aumento de documentos e informação disponível. Com o advento da Internet, todos, potencialmente, passamos de leitores/consumidores a autores/leitores/consumidores.
Mas um aspecto importante que deve ser realçado é o facto de a Internet facilitar o acesso à informação, mas não apenas à informação textual. O mundo visual, gráfico, multimédia e electrónico está, agora, “à distância de um click”.
Podemos fazer visitas virtuais a museus – veja-se a título de exemplo o Museu Virtual da Imprensa , o Museu Virtual Aristides de Sousa Mendes, o Museu Virtual do Calçado, entre muitos outros.
Se até há pouco tempo a Internet disponibilizava inúmeros documentos textuais, deixando de parte muito do que é considerado material não livro, actualmente assistimos a uma perfeita integração de todos os suportes documentais na rede.
Mas esta impossibilidade quase infinita de acesso informacional, requer um saber, por vezes negligenciado, e que se traduz nas competências de recuperação da informação. De modo a que não nos percamos no oceano informacional, é essencial desenvolvermos competências que nos permitam recuperar o que queremos. Esta busca de informação far-se-á, independentemente de sabermos exactamente o que procuramos, ou de nos socorrermos da “famosa técnica” de serendipity que, embora se baseie no acaso, pressupõe sempre que nos coloquemos no caminho correcto.
O advento da Internet é, sem dúvida, um grande avanço no que diz respeito ao acesso à cultura e à informação mas, requer custos – custos ao nível de material e recursos humanos. Mas, parece caminhar-se, ainda que, a passos lentos, para uma consciencialização das instâncias superiores, para a necessidade de actualização de serviços. Existem inúmeras ferramentas open source que possibilitam que arquivos, bibliotecas, museus e mesmo particulares disponibilizem inúmera informação sem que para tal tenham que suportar custos excessivos.
Mas não basta disponibilizar informação e recursos. Cabe aos arquivos, bibliotecas e Museus, educar/formar os seus utilizadores e publico alvo, fornecendo-lhes competências informacionais, no sentido de os apetrechar com o conhecimento inerente à recuperação da informação, prestando assim, serviço público e indo de encontro ao preconizado no Manifesto IFLA/Unesco.

Do Grande Armazém ao Bazar!

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António Andrade | Faculdade Economia e Gestão | Universidade Católica Portuguesa | Colaborador do blogue

As teorias educativas centradas no construtivismo e no acto de aprender têm hoje, na tecnologia, um potencial de aplicação.
Mas não há modelo para aquilo que nunca se viu! Nota-se então, no ensino superior, e na aplicação do designado acordo de Bolonha, dificuldade em perceber definitivamente que o ensino é: partilhar, colaborar, criar, reutilizar, citar, investigar. Ou seja é explorar o potencial da Web 2.0, é criar a Wikiversity!
Não adianta disponibilizar uns textos numa plataforma de elearning, pedir como exercício um texto de 10 páginas, entregue no gabinete, na secretaria, ou num caso «sofisticado» via upload na plataforma. Porque é que o texto em suporte digital não tem vídeo, original ou fruto de um remix feito com ferramentas simples, potentes e grátis. Mas porque deve ser um texto e não só o vídeo, ou uma TV de Grupo, ou de estudante (veja-se mogulus.com). Ou porque o docente não tem o seu canal de TV gratuito?
Se os jovens foram socializados pelo multimédia, aprenderam desde bebés a processar centenas de imagem por minuto, não devem explorar um novo mundo? Navegar em ambientes como o Piclens, e encontrar taxonomias de informação em ambientes como, entre muitos outros: wikimindmap.org, thinkmap.com, theBrain.com, ou em touchgraph.com. Mas também explorar learn games que antecipam cenários, obrigam ao trabalho de equipa, à tomada de decisão e ao lidar com a pressão. Certamente não estão motivados para a configuração pedagógica actual das Universidades.
A Universidade está perante a Globalização das Fontes de Saber. O paradigma não é os conteúdos fechados na plataforma, ou na sala de aula. Veja-se a iniciativa do MIT on-line e da U. Berkeley (330H YouTube).
O Grande Armazém – A Universidade – tem de redescobrir a capacidade de se centrar no aluno e extrair motivação e capacidade de trabalho que leve à informação de qualidade e desta ao conhecimento.
O que se ensina, como se ensina e avalia mudou. Porque mudou a quem se ensina!

Arquivos, Bibliotecas e acesso à cultura e à informação na era da Internet

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Teresa Lima | Arquivo Municipal de Gondomar | colaboradora do blogue

Há um par de anos recorri a uma biblioteca pública galega para recolha de notícias de periódicos locais. O milagre da tecnologia deu-me várias pastas de cd’s, com toda a informação necessária digitalizada. O paraíso! Nos últimos meses, preparei o fôlego para nova ronda de consultas, desta feita de periódicos portugueses. Complicado. Digitalização é palavra que voa, mas não pousa. Ou pára pouco. Aqui e além. E se pousa paga-se caro. Vejamos as alternativas. Microfilmagem, está certo. Tantos dias para obter o microfilme, outros tantos para pegar nas películas e levar a uma loja perto de si, ou longe, ou onde quer que passem aquelas miniaturazinhas de informação preciosa para um papel, letra legível, por fim. O balanço, apesar de tudo, nem foi tão negativo. Descobri uns anjos que permitem o uso de máquinas digitais. Tirei fotografias a tudo o que me interessava e arrumei o assunto com alívio.

Sim, o problema do dinheiro. Digitalizar sai caro, conservar custa balúrdios, os depósitos estão escondidos dos olhos mediáticos, o que rende neste país é o futebol, cultura nem por isso, todos nos vamos arranjando como podemos e só Deus sabe. Correcto. Por curiosidade, fui ver o arquivo do El Mundo na Internet, com edições (desde 1994) arrumadas por dias e disponíveis sem ondas. El País: jornais acessíveis desde 1978, busca por tema ou por data. Nada a acrescentar… Nem foi preciso o serviço público garantir o que é suposto que garanta.

Trata-se de um exemplo muito básico. Já nem falo de repositórios de informação em rede, mais ou menos especializados, espaços de informação suficientemente versáteis para acolher diferentes formatos, amassar tudo num bolo coerente, que resulte em melhor serviço ao utilizador, uma Babel digital. Aqui, os profissionais da informação deitam a mão à cabeça, desunham-se para obter o rigor máximo na simplificação desejada, entram em conversas de extra-terrestre: controlo da linguagem, meta- informação, interoperabilidade. Ufa! Desafios enormes e tantas dúvidas por esclarecer. Quanto mais se avança, mais há para fazer Que seja, venha tudo isso e mais alguma coisa, se preciso.

Notas soltas sobre Ciência da Informação (2)

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Armando Malheiro da Silva |Faculdade de Letras | Universidade do Porto| Colaborador do blogue

1. Ainda o DeltCI Na primeira nota, com que inaugurei este espaço dento do oportuníssimo blog da BAD-Norte, tive o ensejo de apresentar o projecto DeltCI como contributo importante para o debate epistemológico em torno da Ciência da Informação trans e interdisciplinar que venho defendendo e postulando. A aposta terminológica é imprescindível ao processo de construção científica e deve reflectir os conceitos operatórios, as teorias, os modelos e toda a utensilagem teórico-metodológica que permite a uma disciplina explorar o seu campo de estudo e fornecer, consequentemente, respostas práticas aos profissionais que tenham nela a sua matriz formativa. Não deve, por isso, surpreender que, na lista dos verbetes, predomine o conceptual em detrimento do instrumental e da miscelânea terminológica constituída por termos oriundos de diversas artes, técnicas e profissões. Basta focar alguns exemplos: Artefacto, Avaliação, Campo (de estudo científico), Ciências da Comunicação, Ciências Documentais, Colégio Invisível, Comportamento Informacional, Conhecimento, Dado (1), Dado (2), Discurso, Documento, Era da Informação, Fenômeno, Formação Poliédrica, Gestão da Informação, Infometria, Informação, Interactividade, Leitura, Linguagem, Literacia Informacional, Memória, Mentefacto, Método Quadripolar, Museu Virtual, Necessidade, Organicidade, Paradigma, Propriedades (da Informação), Série, Sistema, Sistema de Informação, Situação, Suporte, Tipo Informacional e Valor da Informação. Há também exemplos que ilustram conceitos em uso que, dentro da concepção transdisciplinar de C.I. , são anacrônicos e precisam ser substituídos por outros. É o caso de Colecção e de Fundo, substituíveis por Sistema de Informação. Este elenco é uma amostra apenas que visa comprovar o esforço que urge fazer de dar consistência e unidade interna à CI, não obstante as suas fragilidades e limitações. Temos de reconhecer que continua a faltar um consenso em nível mundial sobre a dimensão epistemológica e o alcance teórico-prático desta ciência emergente. E esse consenso falta por vários motivos ou razões, avultando, como uma das principais, a practicidade profissional imbuída, até à raiz, de senso comum e de subjectividade incontrolável. Uma prática profissional que se tem imposto aos teóricos e, em especial, aos poucos autores que têm ousado entrar pelo campo imprescindível, mas demasiado escorregadio e armadilhado da reflexão em torno da natureza e dos limites do conhecimento científico sobre a informação e respectivo fenômeno info-comunicacional. E tem-se imposto de tal forma que dificilmente é questionada pelos autores a matriz profissional da disciplina: aceitam todos essa matriz e partem dela directamente para a assunção da interdisciplinaridade, firmados na observação empírica e na experiência pessoal de que um bibliotecário fornece informação de diverso tipo, codificada em línguas diferentes e destinadas a utilizadores de contextos díspares, o que implica ter de estabelecer relações com saberes e disciplinas várias. Isto é um facto, mas só ilusoriamente diz respeito à condição interdisciplinar da C.I. considerada dentro de um estatuto de cientificidade, porque a abertura e a aquisição de competências linguísticas, e até científicas, que um bibliotecário precisa possuir, enquanto profissional a desempenhar as tarefas de mediação que lhe competem num qualquer serviço de Biblioteca ou Centro de Documentação convencional, não decorrem de um corpus teórico-metodológico coerente e unitário próprio e ensinado em nível de graduação e de pós-graduação, mas tem a ver sobretudo com a necessidade prática de adaptação ao contexto profissional e de compreender o conhecimento dos outros com quem, ou para quem se trabalha. Falar de interdisciplinaridade da CI exige uma pergunta prévia e uma prevenção indispensável: de que falamos exactamente? Se nos referimos ao âmbito profissional específico de bibliotecários, de documentalistas ou de arquivistas, é natural que estes assimilem práticas e conhecimentos produzidos por quem faz e usa os documentos que eles devem descrever, mediar e conservar; mas esta abertura ao outro e esta assimilação e diálogo através da “linguagem” do outro não se inscreve no sentido científico da interdisciplinaridade, conceito que implica, em nível de pesquisa, a convergência de disciplinas diferentes num problema comum, que tenderá a ser resolvido e explicado pelo cruzamento de abordagens diversas, mas pontualmente complementares. Neste sentido mais preciso, será que é apropriado dizer que a CI é, por exemplo, uma interdisciplina? Isso significa o quê? Que é um somatório fragmentado e diferenciado de abordagens disciplinares que convergem sobre diversos problemas? Se for isto, o simples uso do plural poderia introduzir alguma coerência e ainda assim não seria suficiente para salvar este equívoco epistemológico. Mas, persistir no singular para significar um somatório de abordagens múltiplas é praticar desde logo um erro crasso de concordância de número… No nº 5 da revista Prisma.Com publiquei um artigo intitulado Ciência da Informação e Sistemas de Informação: (re)exame de uma relação disciplinar, no qual, citando Olga Pombo a propósito do sentido adequado de conceitos como interdisciplinaridade, interdisciplina, transdisciplinaridade e outros, posicionei-me desta forma sobre esta questão:

Este termo [interdisciplina] relaciona-se com o conceito de interdisciplinaridade e, portanto, só pode significar logicamente um conjunto de disciplinas autônomas (entre si) – e nunca uma só disciplina – reunidas temporariamente para resolver um problema ou um conjunto específico de problemas. Em contraponto, defendemos que a CI é essencialmente uma transdisciplina constituída pela acção integradora de outras existentes e com afinidades essenciais entre si, que busca, por esta via, uma identidade científica própria, e é, por ser uma disciplina com identidade científica própria, e é, por ser uma disciplina com identidade mínima, que pode participar activamente em múltiplos programas interdisciplinares e intercientíficos, para usarmos as categorias atrás vistas através do contributo de Olga Pombo, sem se diluir neles e beneficiando com os efeitos/resultados dessas apostas.

Um esforço imperioso de clarificação se impõe neste ponto, como em tantos outros. A permeabilidade da profissão de bibliotecário, de documentalista ou de arquivista às praticas e saberes de outros profissionais não se encontra no mesmo plano do exercício de interdisciplinaridade. Este situa-se dentro da actividade científica da pesquisa e da compreensão/explicação dos problemas teórico-práticos que constituem e enriquecem, substancializam um campo cientifico propriamente dito.

2. As surpreendentes Actas do 3º EDIBCIC – Ibérico As considerações anteriores ajustam-se, como preâmbulo, à recensão das Actas do III Encontro em Educação e Investigação em Bibliotecologia, Arquivística, Ciências da Informação e Documentação de Iberoamérica e Caribe, realizado de 5 a 8 de Maio, na Faculdade de Tradução e Documentação da Universidade de Salamanca. O adjectivo surpreendente é aquele que, à falta de melhor, exprime bem algo de raro… O volume, editado pelas Ediciones Universidad Salamanca, de capa castanha com a foto, a roxo, de um carro mais a legenda, a amarelo, “Ao volante do Chevrolet pela estrada de Salamanca” (adaptação de uns versos de Fernando Pessoa), surpreende desde logo por ter sido distribuído gratuitamente e em abundância (mais de um exemplar por pessoa) aos participantes no segundo dia do Encontro e também pela espessura (851 págs.) resultante, na prática, de uma significativa adesão de participantes vindos de vários pontos de Espanha, de Portugal e da América Latina, com relevo para o Brasil. Por comparação com o primeiro e o segundo primeiro e segundo Encontros, o acréscimo foi exponencial, além de ser este o único até ao momento a publicar prontamente as comunicações enviadas e aceites por um comitê científico. De quatro ou cinco pessoas reunidas em Salamanca, no alegado primeiro evento, aos cerca de cem que, de novo em Salamanca e poucos anos depois, fizeram comunicação aceite e incluída nas actas, há a registar um extraordinário salto de afirmação e de consolidação do intercâmbio científico e formativo no campo das Ciências da Informação e da Documentação, de acordo com a expressão plural e indefinida em uso em Espanha e em vários países da América Latina. Quatro grandes temáticas concentraram o interesse dos docentes e investigadores participantes no Encontro, a saber: (1) Formación, com subdivisões (1.1 Adaptación al espacio Europeo de Educación Superior; e 1.2 – Experiências de innovación docente); (2) Competencias Profesionales y Mercado Laboral; (3) Investigación; e (4) Cooperación y Estúdios Comparados. Prosseguirei, em próxima nota, a recensão breve e apelativa desta obra importante, mas, mesmo para rematar, não posso deixar de referir que, num total de 62 comunicações publicadas, só duas versam sobre a epistemologia da Ciência da Informação ou da Informação e Documentação (Epistemologias posmodernas en Información y Documentación, por Rosa San Segundo, p. 675-684; e Produção científica brasileira na temática Epistemologia da Ciência da Informação, por Gustavo Henrique Freire e Armando Malheiro da Silva, p. 685-690), o que, por si só, é bastante revelador do pouco interesse, ou da extrema dificuldade sentida pelos docentes e investigadores em Informação e Documentação, tanto em Espanha como em outros países, de abordarem um tópico sem dúvida essencial e indispensável à sobrevivência do campo de C.I., mas espinhoso e movediço…

Web 2.0 – uma necessidade criada

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Susana Martins | Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão, Instituto Politécnico do Porto, Assistente | Colaboradora do blogue

Um Serviço de Informação pode ser encarado como um conjunto de informação, devidamente organizada de modo a servir e satisfazer os seus potenciais utilizadores. A prossecução deste objectivo prevê a utilização de recursos, quer humanos, quer materiais. Desta definição é possível extraírem-se 4 componentes essenciais a qualquer serviço dessa natureza:

  1. Fundo
  2. Organização
  3. Difusão da informação
  4. Utilizadores

Sem estes elementos não poderíamos falar de serviço de informação pois é a sua (co-)existência que valida o conceito. Um centro de informação, para ir de encontro às actuais necessidades e funcionar como um sistema de transmissão de informação, tem, obrigatoriamente, que disponibilizar determinados serviços.
Atendendo às tecnologias actualmente disponíveis e à democratização das mesmas, os serviços de informação tendem a manter a sua presença física mas, em simultâneo, criar uma existência virtual. Alguns, em particular os serviços de informação com um alto nível de especialização, chegam mesmo a dispensar a existência física, centrando-se no objecto virtual. Independentemente do caso, a presença on-line é, nos dias que correm, uma obrigatoriedade inegável.
Citando Castells[1] “Um novo sistema de comunicação que fala, cada vez mais, a língua universal digital tanto está a promover a integração global da produção e distribuição de palavras, sons e imagens da nossa cultura como os personalizando ao gosto da identidade e humores dos indivíduos. As redes de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldadas por ela.”
É um facto que a informação digital domina o nosso quotidiano. Os avanços tecnológicos nessa área revolucionaram o acesso à informação pelo que é hoje um grande desafio para os serviços de informação adequarem-se a esta nova realidade e às expectativas e necessidades dos utilizadores do séc. XXI. Recordemo-nos que muitos destes utilizadores são digital born e que este público também deve ser atendido e compreendido. O acesso à distância, possível através do uso de determinado equipamento, facilita o acesso e utilização de serviços, quebrando-se barreiras físicas e horários.
Ora, os recursos necessários para implementar a presença de um serviço de informação na web não são hoje incomportáveis, bastando para tal un PC com o respectivo sistema operativo e acesso, preferencialmente de Banda Larga, à Internet. Quanto ao software necessário para que a virtualização, neste caso parcial, do serviço possa ser uma realidade, este pode constar de um pacote “ofimático” ou podem ser usadas ferramentas baseadas na web, ou seja, disponíveis on-line, não sendo necessário o download das mesmas, e cuja utilização é gratuita. Estas ferramentas têm a particularidade de pertencerem à família web 2.0.
A web 2.0 mais não é do que a evolução (natural) da web 1.0, onde nem todos podiam publicar e editar conteúdos pois para tal acontecer eram necessários conhecimentos aprofundados sobre informática e programação. A web 2.0 é então uma (r)evolução da própria web 1.0 pois pressupõe que todos sejamos produtores e editores de conteúdos, sem que para tal sejam necessários esses conhecimentos aprofundados. No seguimento desta filosofia, surgem então as chamadas ferramentas web 2.0 com o objectivo de facilitar enormemente a presença de qualquer instituição, ou individuo, on-line, pressupondo uma alteração relativamente ao modo como nos relacionamos com as tecnologias da informação baseadas na web.
É então legitimo pensar-se que a utilização de ferramentas web 2.0 em processos comunicacionais, por parte de serviços de informação, poderá, a curto prazo, permitir ao serviço de informação, atingir quatro objectivos:

  • aumentar a sua consulta, através de um mais facilitado e livre de barreiras como o espaço e o tempo, incrementando o contacto com o público,
  • despertar o entusiasmo pelos serviços disponibilizados, que demonstra assim estar atento às novas tecnologias e à forma como estas podem valorizar o seu papel,
  • incrementar a intervenção activa e participada do público alvo nas iniciativas desenvolvidas,
  • estreitar os laços entre a instituição e o público.

A nosso ver, a sua utilização não deve então ser entendida como moda, mas sim como uma resposta a uma necessidade criada pela evolução tecnológica e consequente democratização do uso da tecnologia existente. Para tornar esta percepção mais clara, basta invocar o Manifesto da IFLA/UNESCO sobre Bibliotecas Públicas, onde está patente que o acesso à informação não deve, de modo algum, ser discriminatório. Ao complementar os serviços de cariz e presença tradicional com outros, de cariz mais inovador, o serviço de informação estará a cumprir na íntegra parte da designada missão da Biblioteca, entendida como um Serviço de Informação por excelência pois chegará de modo mais rápido e eficaz às novas gerações de utilizadores nados digitais.


[1] CASTELLS, Manuel – A galáxia internet: reflexões sobre Internet, negócios e sociedade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. Serviço de Educação e Bolsas, 2004. ISBN 972-31-1065-2.

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