Armando Malheiro da Silva |Faculdade de Letras | Universidade do Porto | Colaborador do blogue

1. O desafio e a idéia

De forma muito simpática e irrecusável a Drª Jacinta Maciel lançou-me o desafio sob a forma de convite para participar neste blog, que em boa hora a Delegação Regional Norte da BAD decidiu criar. Sei bem quanto me é difícil, por manifesta falta de tempo, agarrar como gostaria o desafio posto, mas tive logo a idéia de colaborar com uma rubrica permanente, tecida ao correr do teclado, sobre as idéias, publicações, eventos, iniciativas e debates que me forem tocando relativas ao campo cientifico em que me situo como docente e investigador.

As notas serão soltas, mas – e tinha de haver um aparente paradoxo – amarradas a uma perspectiva epistemológica e um posicionamento teórico-metodológico e formativo sobre CI a que o meu nome e o das colegas com quem trabalho se acham claramente ligados. Serão soltas obviamente porque não há uma agenda, um plano prévio definido com detalhe, elas ficarão alinhadas algo aleatoriamente, mas presas ao eixo de um propósito: debater e esclarecer a possível (re)construção da CI.

2.

Em 6 de Novembro de 2007 foi publicamente lançado este projecto, que surgiu por volta de 2003 na Universidade Federal do Espírito Santo, sedeada em Vitória, Brasil, graças ao empenho e entusiasmo de dois professores do Departamento de Ciência da Informação – Attilio Provedel e Lúcia Miranda Correa. Ao início a idéia era bem mais específica e modesta, pois tratava-se de recensear termos de Arquivologia e colocá-los on-line para atender as necessidades dos alunos e o combate sentido por esses colegas contra a perturbadora dissonância conceptual reinante nessa disciplina. Diferentes significações para a mesma palavra, alterações de significado com a passagem do tempo, equivocidades semânticas e técnicas constituíam um entrave ao bom exercício da docência e ao desejável sucesso compreensivo por parte dos alunos.

Em 2004 associei-me ao Projecto e, com estes colegas e queridos amigos, a aventura tomou o rumo que é hoje possível apreciar, graças ao imprescindível contributo do Paulo Sousa, na seguinte url:

http://www.ccje.ufes.br/dci/deltci/index.htm

Não houve uma ruptura com a idéia inicial, apenas uma ampliação e a assunção de um posicionamento epistemológico claramente assumido. Postula-se, através deste Dicionário Electrônico, a possibilidade de uma CI que não é a disciplina autônoma em relação à Biblioteconomia ou à Documentação ou ainda à Arquivologia e eventualmente a outras mais e que não é a disciplina surgida após 1945, nos Estados Unidos da América, associada ao processamento automatizado da informação (é claro que esta variante surgiu e está bem documentada, mas o que se contesta é a alegada identidade própria ou exclusiva) e fundada num paradigma diverso, por exemplo da Biblioteconomia, como alguns insistem em defender sem que apresentem uma conceituação consistente de paradigma e mostrem a profundidade dessas supostas (ou convenientes?) diferenças. Postula-se, enfim, uma CI transdisciplinar, o que significa que ela resulta necessariamente do movimento de integração e de (re)construção das disciplinas práticas que acumularam um palpável lastro desde o séc. XIX e ao longo do XX – a Biblioteconomia/Bibliotecologia, a Documentação e a Arquivística. E ainda a tal específica Information Science norte-americana. Também, não está de fora uma certa interpenetração com a interciência em expansão desde os anos oitenta – os Sistemas de Informação. Entendemos, pois, que a CI é ou tende a ser uma transdisciplina, com alguma unidade teórico-metodológica e um objecto próprio. E com esta base matricial unitária a sua vocação interdisciplinar surge mais e melhor reforçada, porque é óbvio que o fenômeno humano e social, consubstanciado pelos conceitos de informação e de comunicação ou pela expressão processo info-comunicacional, convoca múltiplas e diferentes abordagens científicas e filosóficas que podem complementar-se, constituindo um fecundo e largo campo interdisciplinar. Mas admitir isto não implica a adesão ao modismo pós-modernista de adornar a CI com o rótulo de interdisciplina, por muito cientifica e intelectualmente correcto que possa ser ou seja. Considerar a CI uma interdisciplina é condená-la, na dimensão pratica e acadêmica, a um não-lugar, a uma vacuidade espumosa que uma vez desfeita deixa ver as âncoras das disciplinas dominantes que se escondem por baixo da espuma. Eis um simples e rápido exemplo: um estudo sociológico sobre as práticas relacionadas com a produção e uso numa Organização não é um estudo de CI porque incide sobre tais práticas, mas um estudo sociológico por ser esta a matriz teórico-metodológica e disciplinar que guia e fundamenta a pesquisa. Porém, este equívoco, fácil de desmontar anda à solta e é bem visível em dezenas e dezenas de dissertações de Mestrado e teses de Doutoramento em Espanha e no Brasil, para citar casos que nos influenciam mais directamente.

Tinha de gastar algumas linhas com a prevenção epistemológica, pois ela explica a importância de um empenho terminológico essencial à actividade científica. A terminologia não se reduz a um conjunto de palavras criadas e usadas por um grupo mais ou menos fechado de pessoas. Dentro da acção da ciência, de qualquer ciência, a terminologia agrega sobretudo conceitos operatórios, teorias e modelos forjados pela operacionalização disciplinar e vitais para que o trabalho prossiga e a obtenção de novos e melhores resultados aconteça num continuum infindável… Estou a referir-me claramente à terminologia científica, sem excluir outras variantes como a profissional e técnica. Ao início, a terminologia pensada, embora se abrisse a um desiderato científico para a Arquivologia, não se afastaria, na prática, da colecta de termos enformadores de uma acção profissional e instrumental permeada pelos usos e costumes de profissões adjacentes ou confluentes como a administrativa, a judicial, a livreira, a da encadernação, etc.

A opção traçada neste Dicionário de Terminologia vai no sentido claro de uma CI transdisciplinar que tem de ser praticada com sentido crítico, muita abertura e a máxima clarividência. Sem fechamento, nem dogmatismos, o que implica o apelo a um processo cooperativo. Acolhem-se sugestões e críticas. Acolhem-se e estimulam-se propostas de novos verbetes. O grupo de colaboradores permanentes poderá crescer e, quanto maior for, melhor se cumprirá o propósito profundamente científico de agregar muitos e diferentes olhares para uma visão conjunta e coerente.

Não confundo ciência com profissão, mas sei quanto os profissionais da Informação precisam de consolidar um conhecimento compreensivo e crítico sobre o que fazem e os desafios complexos que a Era da Informação em curso não cessa de lhes apresentar. Possa o DeltCI ser um pequeno, mas útil e estimulante meio de resposta a algumas dúvidas e profundas necessidades. Para tanto espero que a funcionalidade Comentários seja exaustivamente usada. Espero que os Textos, subdivididos em três secções – Origens do Projecto, Da Terminologia e Da Teoria à Prática (nesta secção há escolhas em sintonia com a perspectiva transdisciplinar, mas há tolerância e diálogo com outras perspectivas)- sejam visitados, lidos e discutidos, ao mesmo tempo em que o seu número irá sendo aumentado. Espero que as notícias tenham o impacto que as justifiquem. E, a facilitar a usabilidade do site, a Pesquisa permita agilizar o acesso ao conteúdo certo e pretendido, podendo até surpreender.

O imperativo da globalização envolove vários factores e a dominância de uma língua cada vez mais global, que é um deles, impõe-se e exige uma resposta: está, por isso, em curso a tradução dos verbetes para inglês. E é possível ainda ter uma versão em espanhol.

Os verbetes que já estão elencados, e os que virão a sê-lo, têm de ser lidos dinâmica e hipertextualmente como é próprio do suporte digital e da navegação pelo “espaço de fluxos” (Manuel Castells) ou do ciberespaço (Pierre Levy). Eles são, aliás, sujeitos a revisões e a acréscimos tanto por iniciativa de autores, como de leitores, ambos em inédita e estreita interactividade.

Que o DeltCI seja, como tem de ser – uma obra aberta…

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