Não serão as mensagens de Natal todas iguais, ano após ano? E os votos que formulamos para o novo ano que se perfila, não serão esses também iguais aos do ano passado?

Podemos convenientemente mudar as fórmulas (leia-se alterar a sua ordem na frase), teremos sempre votos de um novo ano mais feliz, mais solidário com uma dose de muita esperança e, porque a conjuntura assim o impõe, vamos apelar à renovada confiança dos portugueses para 2009. E então? Algo muda?

A quadra predispõe-nos a isso, revela as boas intenções que, em boa verdade, temos. É a época para estarmos com os amigos, sermos mais solidários e ficarmos mais próximos da família. É a época para recordar os natais passados, os de criança e os de agora: os natais das (nossas) crianças. Este ano com mais livros, com mais leituras e mais prazer de ler. E depois? Algo muda?

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Desejo que este ano se ofereçam mais livros, livros para serem abertos e lidos, lidos por quem os oferece e lidos por quem os recebe, não lidos por quem os recebe porque não quer ler esses mas outros e troca ou guarda para que aquele exemplar, pelo menos não seja lido e algo terá mudado. Desejo que os livros sejam lidos e não apenas (re)conhecidos, porque é O autor ou é Aquele livro… só poderemos oferecer bons livros se tivermos tido prazer com a sua leitura. Leiam, gostem e ofereçam. Leiam nas bibliotecas, nos arquivos, no regresso a casa, com os filhos e com os avós, leiam em todo o lado, leiam e divirtam-se. E o resto, está para mudar?

O tempo urge. No ano 2000 na ONU 191 países comprometeram-se a unir esforços num projecto comum a pôr de pé até 2015 e consignaram estas boas vontades em 8 objectivos: o combate à fome e à pobreza, à preservação do ambiente, ao acesso à saúde e à educação, à promoção da igualdade de géneros, ao combate a graves doenças e à criação de parcerias mundiais.

Algumas iniciativas são encorajadoras. É preciso mais. Todos sabemos que é preciso. Agir localmente, pensar globalmente: é reflectir e implementar os projectos pelos quais cada um se compromete a participar.

Acaba de ser publicado em França (Ed. Calmann-Lévy), “Huit”, obra na qual participam 8 grandes personalidades da literatura com uma visão crítica acerca de cada um dos 8 objectivos da ONU para o desenvolvimento: Zoé Valdès, Björn Larsson, Taslima Nasreen, Moussa Konaté, Vénus Khoury-Ghata, Philippe Besson, Simonetta Greggio e Alain Mabanchou. Vale a pena ler ou se preferir ver a longa-metragem composta de 8 curtas-metragens (última curta gravada em Março passado). Estas contam, tal como o livro, com o contributo atento de Jane Campion, Abderrahmane Sissako, Gael Garcia Bernal, Mira Nair, Gus Van Sant, Jan Kounen, Gaspar Noé e Wim Wender. Quer o livro “Huit”, quer a longa-metragem têm como principal objectivo alertar os políticos e alertar os cidadãos para que estes (re)lembrem aos seus governos os compromissos que assumiram. O alerta aos cidadãos contempla ainda as crianças para que estas tomem consciência da necessidade dos adultos lhes deixar um mundo melhor. E será suficiente para mudar?

Karl Marx escreveu: os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; trata-se, agora de o transformar. (Teses sobre Feuerbach. 1845)

Porque o mundo a cada dia se transforma, desejo sim o mesmo de sempre: um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo e, de modo particular a todos os associados e colaboradores da BAD: um excelente 2009!

Jacinta Maciel

Advertisements