texto de Henrique Barreto Nunes

Ao Professor Aníbal Alves

Cruzamo-nos, viemos a descobri-lo mais tarde, muito naturalmente sem nos falarmos, aí por 1963, tinha eu 16 anos, quando ambos frequentamos no Centro Académico de Braga, um curso de Iniciação Cinematográfica dirigido pelo Pe. Evaristo de Vasconcelos.
Mas só viria a conhecer efectivamente o Professor Aníbal Alves após o seu ingresso na Universidade do Minho em 1976, sendo eu já bibliotecário da Biblioteca Pública de Braga. Aqui procurou ele o material necessário para o seu estudo sobre o modo como a emigração era encarada pela imprensa regional bracarense, encontrando na BPB um manancial inesgotável. Tal investigação reflectiu-se na sua tese de doutoramento
Presse régionale et emigration : analyse sémiotique du discours sur les émigrants dans les journaux de Braga. Louvain-la-Neuve : Cabay, 1984.
Foi fácil estabelecer laços de amizade com o Professor Aníbal Alves : a sua maneira de ser, a sua afabilidade, a sua simpatia, o seu desprendimento rapidamente me conquistaram e depressa foi ultrapassada a relação profissional entre o bibliotecário e o académico.
Essa relação consolidou-se quando Aníbal Alves passou a integrar o Conselho Cultural (1990-1996) na qualidade de presidente do Centro de Estudos Lusíadas, sob a bênção de um inesquecível amigo comum, o Professor Lúcio Craveiro da Silva.
Ao longo dos anos a amizade e admiração cresceram, tive o privilégio de poder contar com a sua participação em diversas iniciativas da Biblioteca e acolhê-lo nas variadas ocasiões em que dela precisou para os seus trabalhos ou dos seus alunos
Por isso recebi com enorme alegria o gratificante convite para colaborar neste Livro de (justa) Homenagem, o que faço, inspirado no motivo dos  nossos primeiros contactos, com este despretensioso e nada científico texto sobre a importância dos jornais na minha vida – mas este, penso eu, também será um livro de afectos e memórias.

Tal como os livros, também os jornais se encontram presentes nas minhas recordações mais longínquas.

Não admira, sempre houve jornais nas casas onde vivi, porque quer o meu avô, quer o meu pai, além de leitores diários eram colaboradores da imprensa local, do “Jornal de Monção” ou de “A Terra Minhota”.

Estávamos no início da década de 50 do século passado, vivia entre Monção e Vila Nova de Cerveira e desse tempo lembro em especial “O Primeiro de Janeiro” e “A Bola”, onde dei os meus primeiros passos como leitor.

O “Janeiro” era o jornal da família, mas a mim então apenas me fascinava a edição dominical, com as histórias em quadradinhos do W. Disney (a primeira de que me recordo foi A dama e o vagabundo) e do Reizinho. Desse tempo também não posso esquecer “O Mundo de Aventuras” onde começou verdadeiramente a minha paixão pela banda desenhada.

“A Bola” era talvez o jornal preferido do meu pai, apaixonado pelo futebol (foi jogador, treinador, dirigente), na qual eu procurava inicialmente os resultados, a constituição da equipa e os nomes dos marcadores de golos da minha eterna e inesquecível Académica de Coimbra, onde o meu pai com enorme orgulho tinha jogado enquanto estudante universitário.

A doença futebolística transmitiu-se facilmente e manifestava-se por exemplo nos recortes que ia já fazendo das fotos dos jogadores de “Briosa” que depois colava em sebentas. Assim consegui dar cabo de uma colecção de “A Bola”, desde o primeiro número, que o meu pai guardava ciosamente, mas que não resistiu às tesouradas com que eu e o meu irmão a destruímos.

A mania dos recortes, que o meu pai também praticava, ficou para toda a vida, como adiante se verá, mas também foi influenciada por um tio que vivia no Brasil e que de lá mandava quase todos os meses uns rolos embrulhados em papel acastanhado com revistas como “O Cruzeiro”, “Manchete” e “Factos e Fotos”, no meio dos quais vinham por vezes páginas de jornais com notícias sobre acontecimentos que em Portugal eram ocultados.

Durante alguns anos, enquanto estive em Braga, aqueles continuaram a ser os meus jornais preferidos, com interesse acentuado pelos desportivos. “A Bola” era indiscutivelmente o meu predilecto, mas ainda me lembro bem que ao Domingo à noite, quando a minha família ia ao cinema, no 1º intervalo vinha à entrada comprar “O Norte Desportivo”, acabado de chegar e vendido por ardinas, com as reportagens de todos os jogos da 1ª e 2ª divisões.

Nas férias, que passava em Vila Praia de Âncora e Monção, às segundas e quintas-feiras aguardava ansiosamente a chegada do comboio para me regalar com a leitura de “A Bola”. Quando estava na minha terra natal, pelas 5 da tarde, mal ouvia o apito do “Flecha”, vinha a correr até à estação para poder ser um dos primeiros compradores. Era um autêntico viciado na leitura desse jornal.

O gosto pelos jornais e a paixão pelo futebol levaram-me mesmo a redigir em 1960 um jornalzinho manuscrito e ilustrado, de que saíram 4 números, “ Notícias da Académica da Restauração”, o qual procurava reproduzir o modelo da imprensa desportiva, onde dava notícias, fazia reportagens de jogos, entrevistas, etc. de um grupo que eu próprio fundara (Restauração era o nome da rua em que morava).

Nos finais de 1964 fui para Coimbra. Nos primeiros anos, vivendo a tradição e as praxes coimbrãs e a paixão pela Académica (então ainda uma equipa de estudantes), a minha maneira de ser pouco mudou e a minha visão do mundo continuava a ser muito limitada, por isso os jornais desportivos (cuja compra partilhava com o meu irmão) continuaram a dominar os meus interesses de leitor da imprensa periódica.

Mas aos poucos, sobretudo quando mudei de Direito para Letras (História), com o convívio com outros colegas e o imparável crescimento do movimento associativo e, através dele, a constatação da dura realidade em que o país vivia, comecei lentamente a descobrir que havia outros problemas. Novos interesses e preocupações começaram assolar o meu espírito, ao mesmo tempo que o cinema, a literatura e a música de intervenção, através da qual descobri a poesia portuguesa contemporânea, ganharam uma maior importância, uma outra dimensão.

Com a “crise académica de 1969” partilhei e senti os efeitos de uma autêntica revolução cívica e cultural, ganhando alguma consciência crítica e percebendo finalmente que vivia num país amordaçado, sem qualquer liberdade, suportando a restrição dos mais elementares direitos. Senti no corpo a violência da repressão das ideias.

As conversas, os debates, os recitais, os espectáculos e a leitura, além da participação no associativismo académico ajudaram a formar-me como cidadão e a aperceber-me melhor da necessidade de estar bem informado, mesmo num país visado pela censura.

Não deixando de gostar de futebol (aliás a Académica portou-se exemplarmente durante a crise de 69 e a final da Taça de Portugal no Jamor, na qual estive, foi considerada um dos maiores comícios até então realizados no país), descobri que havia outros jornais, outras revistas que me ajudavam a melhor compreender, muitas vezes entre linhas, o que se passava e o que se silenciava.

Assim comecei a comprar regularmente o “Diário de Lisboa”, também por causa do seu excelente suplemento literário, do Juvenil e de A mosca, e a partir de certa altura a “República”, de Raul Rego que também tinha um suplemento cultural de qualidade.

Ao de leve convoco algumas revistas. A “Plateia” e a “Flama”, que até então faziam parte dos meus hábitos de leitor, foram substituídas pelo “Século Ilustrado” e pela “Vida Mundial”, especialmente esta, que abordava os assuntos de forma mais crítica e abria outros horizontes, que se alargaram com a “Seara Nova”, a “Vértice” e “O Tempo e o Modo”.

Voltando aos jornais, no início de 70 há outras descobertas a assinalar, com relevo para o jornalzinho cor-de-rosa, “O Comércio do Funchal”, uma autêntica revelação pela qualidade dos colaboradores e pela forma provocatória, corrosiva, mas simultaneamente inteligente como abordava muitos temas políticos, sociais e culturais (este jornal merecia um estudo académico).

A este comprava-o sempre que o conseguia apanhar em Coimbra (a Braga não chegava), outros, semanários, incómodos para o regime, circulavam de mão-em-mão, como era o caso do “Notícias da Amadora” e do “Jornal do Fundão”, muito vigiados pela censura pela forma como tentavam formar consciências e denunciar a opressão.

É por essa altura, por insistência do meu pai, que achava que eu tinha um certo jeito para a escrita, que concretizo um velho sonho e pela primeira vez vejo o meu nome em letra de forma, quando a 13 de Janeiro 1973 colaborei em “A Terra Minhota”, de Monção, com um pequeno artigo sobre o poeta galego Manuel Maria a quem tinha conhecido em Coimbra (e que anos mais tarde convidei para se apresentar na Biblioteca Pública de Braga).

Provocou-me uma enorme alegria essa façanha e ainda hoje vou escrevendo para aquele quinzenário, seguindo as pisadas de meu avô e de meu pai, tradição a que o meu filho já deu continuidade. Quatro gerações de uma família a colaborarem no mesmo título, desde 1930 até hoje, deve ser caso raro, de que muito me orgulho.

Voltando ao meu percurso de leitor de jornais, apanho naturalmente o “Expresso” no início de 1973, uma autêntica pedrada no charco da sociedade portuguesa que ameaçava despertar de uma letargia de 4 décadas.

Antes de terminar esse ano ganhei uma bolsa para ir procurar em Paris, no Institut d’Archéologie Henri Doucet, bases para estudar a escultura castreja e romana do Norte de Portugal, que deveria ser a minha tese de licenciatura.

Paris foi um deslumbramento e uma autêntica revolução mental (e a outros níveis…) para um jovem provinciano que só conhecia a Galiza e ali, entre muitas descobertas e revelações, como os francos escasseavam, encontrei uma nova maneira de sustentar o meu vício de leitor de jornais: era no lixo das ruas, nas poubelles, que eu recolhia diariamente o “Le Monde”, “Le Figaro”, “L’Équipe” e muitos outros títulos da imprensa francesa que me davam uma informação muito diferente da que até então conhecia. Acompanhei os debates sobre o aborto que então decorriam em França ou as polémicas à volta do golpe fascista de Pinochet e soube do 16 de Março, cuja repercussão na livre imprensa francesa muito me impressionou (ainda hoje conservo alguns recortes de jornais desse tempo).

Em Paris recebia regularmente gordos envelopes enviados pelo meu pai com recortes dos jornais que ele comprava, em especial do “Expresso” e da sempre presente “Bola”.

Aliás, uma que outra vez, não resistia à tentação e às segundas-feiras, por volta das 6 da tarde, ia à Étoile, a um célebre quiosque onde acorriam muitos emigrantes portugueses, para com grande sacrifício comprar aquele trissemanário desportivo.

Abro um parênteses para falar um pouco de “A Bola”, tantas vezes referida. Enquanto fui doente pelo futebol, mesmo após as mudanças que vivi a partir de 1969, esse jornal era para mim de grande importância, pelo modo como encarava o fenómeno desportivo e muitas vezes o ligava aos reais problemas da sociedade nos relatos de jogos, nas entrevistas, nas reportagens, nas crónicas ou artigos de opinião. É preciso não esquecer que entre os seus fundadores se encontrava um ex-preso do Tarrafal (Cândido de Oliveira), que teve colaboradores literários de qualidade e jornalistas como Vítor Santos, Carlos Pinhão, Carlos Miranda, Cruz dos Santos, Homero Serpa, Alfredo Farinha, fotógrafos como Nuno Ferrari, cartoonistas como Martins. Depois, com o decorrer dos anos, essas qualidades foram-se perdendo ou degradando. Quando morreu Carlos Pinhão deixei de a comprar. Lentamente foi-se tabloidizando, benfiquizando-se, sendo no meu entender um dos responsáveis pela guerra desportiva Norte-Sul, pelo clima de violência e ódio que se foi instalando entre dirigentes e adeptos. Hoje, apesar de um ou outro cronista que respeito, apenas a folheio quando ma emprestam, pois evito comprar “A Bola”.

Retomando o fio da meada, devo dizer que, terminada a bolsa parisiense, reentrei em Portugal, no Sud-Express, às primeiras horas do dia 25 de Abril de 1974 (esta é a madrugada que eu esperava / o dia inicial inteiro e limpo, como escreveu Sophia), não sem antes, Espanha fora, ter deitado pela janela do comboio, panfletos revolucionários e mesmo jornais subversivos que trazia, mas que podiam comprometer o jovem estudante que eu era quando atravessasse a fronteira e passasse pelo escrutínio da PIDE – tive medo, mas eu não sabia que o medo tinha acabado.

Depois foram os dias empolgantes da Revolução, com os jornais sempre presentes. Guardei quantos pude dos que relataram esses primeiros tempos de euforia e descoberta. Comprei o primeiro “Avante” saído da clandestinidade, mas também o “Luta Popular” do MRPP, a “A Voz do Povo” da UDP, o “Esquerda Socialista” do MES, que passei a assinar como reflexo da minha opção partidária, e tantos, tantos outros, cujos números um procurei coleccionar independentemente da sua orientação política.

Não me recordo de então ter algum jornal preferido. Continuava a ler o “Diário de Lisboa”, o “Expresso”, passei pelo “Diário”. Pouco tempo depois fui conquistado pelo “O Jornal” que reunia alguns dos meus jornalistas preferidos, de entre os quais destaco Fernando Assis Pacheco.

Entretanto, em Dezembro de 1974, comecei a trabalhar na Biblioteca Pública de Braga onde podia ter à minha disposição quase todos os principais diários e semanários passando a dedicar atenção especial à imprensa local, em especial ao “Correio do Minho”, órgão do Movimento Democrático do Distrito de Braga, dirigido por Victor de Sá e que contava, entre outros, com a colaboração de José Manuel Mendes.

No início de 1976, com outros amigos ajudei a criar a CODEP (Comissão de Defesa do Património), com o objectivo de salvar os vestígios de Bracara Augusta que as  novas urbanizações iam  revelando.  Nesse tempo transformei-me no principal redactor dos comunicados da CODEP destinados à comunicação social, o que fez aumentar a minha vontade de colaborar nos jornais. Essa vontade transformou-se em realidade com a fundação da ASPA e a necessidade de escrever comunicados, artigos de opinião e finalmente para a secção “Entre Aspas” que o “Diário do Minho” generosamente alberga desde 1984, sendo aí autor de perto de duas centenas de textos, muitos deles de combate, em defesa do património cultural e natural bracarense e minhoto, o que faço com imenso gosto e me deu, desculpe-se a imodéstia, alguma agilidade à escrita.

Voltando à leitura de jornais, compro o para mim imprescindível “Jornal de Letras” desde que apareceu. Dos jornais diários, fui de imediato conquistado pelo “Público” logo que surgiu, reunindo um grupo de jornalistas e cronistas de eleição, o qual apesar de alguns desequilíbrios, continua a ser o meu preferido.  Dos semanários, tenho pena que a “Gazeta da Semana” não conseguisse aguentar-se e vou comprando o “Expresso”, à falta de melhor (recordo com saudade o tempo de Augusto de Carvalho e Vicente Jorge Silva). O fenómeno do “Independente” nunca me seduziu, mas apesar de às vezes lhe achar alguma graça, considerava-o demasiado conservador.

Relativamente à imprensa local, também colaborei com regularidade, muitas vezes sob pseudónimo, no “Notícias do Minho” (1993/97) de Artur Moura, a que o talento e coragem de Ademar Ferreira dos Santos deu um brilho extra, semanário bracarense que num ambiente hostil e com gestão deficiente não conseguiu sobreviver.

Nesses jornais fui escrevendo sobre bibliotecas e património cultural, hábitos de leitura e temas bracarenses, recensões de livros e notas biográficas, Monção e o Minho, etc. Dá-me um enorme prazer colaborar na imprensa local e saber que por vezes sou lido.

Tive pena que o projecto do “UMJornal”(2003/2005) soçobrasse por razões que muito me custou aceitar. Foi uma experiência interessantíssima e pioneira que, com a ligação à Universidade, podia ter-se transformado no semanário independente e qualificado de que Braga tanto necessita.

Enfim, não consigo viver sem jornais, onde quer que vá levo-os ou procuro-os ansiosamente, fazendo às vezes desvios impensáveis nas minhas viagens para encontrar o que quero.

Possuo milhares de recortes e fotocópias retirados da imprensa periódica: organizo sempre que posso dossiers sobre bibliotecas, hábitos de leitura, censura, ASPA, Bracara Augusta, Monção, temas do momento, etc., etc. a que muitas vezes recorro, tendo-me sido úteis em muitas actividades da biblioteca, para as aulas da disciplina de Bibliotecas Públicas de que fui professor em cursos de especialização em Ciências Documentais ou para a elaboração de artigos. Meto-os no meio dos livros a que dizem respeito, em especial obras de referência (dicionários e enciclopédias), bibliografias e biografias ou então as recensões dentro das respectivas obras de ficção, poesia e mesmo ensaio. Mas a maior parte desses recortes está dentro de sacos de plástico, completamente desorganizados, que não me atrevo a deitar fora porque sei que um deles, um dia, me vai fazer falta…

Transmiti essa dependência ao meu filho que, devido à sua vida, primeiro como estudante, agora profissional, se habituou a receber todas as semanas, em Olomouc ou Varsóvia, em Londres ou agora em Bruxelas, grandes envelopes com recortes sobre os temas que sei lhe interessam. E quando se atrasam, ele reclama.

Apesar de ser bibliotecário, não me sinto atraído pelas edições electrónicas dos jornais, ou mesmo por ver as primeiras páginas em qualquer ecran, embora por vezes, por necessidade, recorra a esses meios de informação.

Aliás, a primeira coisa que faço logo que saio de casa, é ir ao quiosque comprar o jornal e, aí sim, gosto de ver as primeiras páginas, os títulos e folhear os que se acumulam nos balcões e desafiadoramente me acenam.

O papel de jornal sempre me acompanhou, o papel do jornal foi sempre imprescindível na minha vida.

* Este é o segundo de uma série de artigos intitulada “Uma existência de papel” através dos quais  procurarei dar conta das minhas relações com o livro, as publicações periódicas, as bibliotecas e livrarias, enfim tudo o que na minha vida está relacionado com o mundo do papel impresso. O primeiro, Os livros no lixo foi publicado na revista “ Escritor”, nº 24, 2009.