DEDICADO AO PROF. LÚCIO CRAVEIRO DA SILVA (1)

Senhor Professor Lúcio

Eu sei que não gosta muito de vir a esta biblioteca.

Não porque não aprecie esta magnífica casa do livro, da imagem e do som, esta casa da informação, da comunicação e de acção cultural, casa comum de todos os bracarenses, por cujo projecto tanto se bateu, em cuja conclusão e abertura ao público tanto se empenhou.

O problema é ela ter sido baptizada com o seu nome. Na sua simplicidade e desprendimento inatos, genuínos, na sua rejeição de qualquer protagonismo ao qual tantas vezes teve que disciplinadamente – aí está o jesuíta – se sujeitar, a atribuição do nome do Sr. Professor a esta biblioteca, se de algum modo o emocionou, incomodou-o deveras – disse-mo a mim.

Por isso evitou sempre vir até este envolvente espaço, onde se sentia constrangido, pouco à vontade, exposto.

Mas hoje teve mesmo que ser, os seus amigos do Conselho Cultural (C.C.) convocaram-no e não nos pôde recusar a sua presença.

Entendemos, numa reunião em que não esteve presente (senão não deixava) que lhe devíamos dedicar um número da Forum, da sua Forum, da revista de que tanto se orgulhava e em que tantas vezes colaborou, com enorme gosto, porque o prazer da investigação e da escrita fazia parte da sua respiração.

Nessa reunião, como sempre numa agradável mas solidária e dinâmica tertúlia de amigos, de acordo com o clima que o senhor Professor criou, incentivou e tem perdurado, tivemos que definir os critérios relativos aos colaboradores a convidar.

Não podíamos alargar muito esse leque – e quantos dos seus companheiros, discípulos, admiradores não gostariam de o fazer! –

-porque o rigor orçamental, cada vez mais implacável, o impedia (e faltava-nos o Prof. Lúcio para ir bater à porta do reitor, como tantas vezes o fez, para pedir um reforço de verbas.

Por isso resolvemos circunscrevermo-nos os aos actuais e antigos presidentes das Unidades Culturais, a um membro que representasse o plenário do C.C. e naturalmente aos Reitores e Vice Reitores que o Sr. Professor acompanhou, apoiou e aconselhou

Todos foram convidados, pouquíssimos os que não responderam.

Foi assim que surgiu este vol., o nº 42/43 (teve que ser duplo) da Forum, com 17 colaboradores que o Prof. José Viriato Capela me pediu para hoje apresentar aqui, na qualidade de coordenador editorial da revista – e recordo que foi o Senhor Professor quem me convidou para o fazer, a partir do nº 5, há precisamente 20 anos.

Voltando a este volume, dada a natureza dos contributos, decidimos dividi-los em duas secções

– a 1ª com oito testemunhos pessoais sobre o Senhor Professor

– a 2ª com nove estudos escritos propositadamente para este número, em sua homenagem, como se explica no editorial da revista

Os testemunhos começam com o depoimento singelo mas expressivo do Senhor Reitor, Prof. A. Guimarães Rodrigues e incluem:

– a evocação simultaneamente institucional e pessoal do sr. Vice Reitor, Prof. Acílio E. Rocha;

– o in-memoriam do Reitor que criou o C. Cultural, Prof. Sérgio Machado dos Santos

– a lembrança do seu percurso na UM, pelo antigo Reitor e meu prezado amigo Prof. L. Chainho Pereira;

– o belíssimo texto evocativo, tão pessoal e humano ele é, do Prof. Aníbal Alves, que presidiu ao Centro de Estudos Lusíadas (CEL);

– a homenagem do Dr. César Valença que dirigiu o Museu Nogueira da Silva (MNS);

– as palavras breves, mas muito sentidas da Profª Carolina Leite (MNS);

– o poema em prosa, tão comovente, do grande escritor da língua portuguesa que é José Manuel Mendes, ao qual o Sr. Professor quis que o C.C. homenageasse, e que aqui representou o seu plenário;

Seguem-se os 8 estudos que lhe são especialmente dedicados:

– O Prof. José Viriato Capela, presidente da Casa Museu de Monção, que tanto tem prestigiado a UM no Alto Minho, depois de recordar o modo como algumas unidades culturais evocaram as invasões francesas, realça a heróica resistência dos povos do Norte e o modo como o Porto festejou a feliz Restauração de 1808;

– Rui Vieira de Castro, presidente da Unidade de Educação de Adultos (UEA), a que o Sr. Professor esteve ligado desde o início, com a colaboração de Romina Laranjeira, procura contribuir para aprofundar o conhecimento das configurações da literacia no campo da educação de adultos, recorrendo ao discurso pedagógico oficial;

– Carlos Corais, director do Museu Nogueira da Silva estuda as características originais e a qualidade de retratista do italiano Valerio Adami, cuja exposição o Sr. Professor ainda pode admirar;

– Norberto Cunha, que presidiu ao CEL, e que o Senhor Professor muito estimava, num ensaio denso e muito bem documentado, como é seu timbre, revela-nos a formação republicana socialista de Afonso Costa, até à data da proclamação da República;

– Manuel Gama, um dos mais verdadeiros dedicados e generosos amigos do Sr. Professor, actual responsável pelo CEL, reflecte sobre a morte e a imortalidade;

– Francisco Sande Lemos, da Unidade de Arqueologia cuja participação no C. Cultural, de que foi vice presidente, o Senhor Professor tanto apreciava, continua em busca das origens de Bracara Augusta, por cujo salvamento, estudo e divulgação tanto se bateu – e esperemos que mesmo em Lisboa continue a fazê-lo;

– Licínio Lima, que presidiu à UEA sendo durante 16 anos vice presidente do C.C. – cujo inexplicável (e forçado) abandono tanto sentimos – inspira-se num ensaio do Sr. Professor, de 1979 para reflectir sobre o conceito de participação;

– um trabalho que o Sr. Professor certamente muito apreciará é o de Manuela Martins (da U. Arqueologia) a qual, com a colaboração do Luís Fontes, apresenta uma desafiadora proposta, que espera interlocutores empenhados e sensíveis, sobre a criação em Braga de um Parque Cultural Europeu, como uma estratégia para a preservação e divulgação do património arquitectónico e arqueológico bracarense e a sua inclusão nos roteiros culturais europeus. Nele se descrevem sucintamente 15 monumentos relevantes, em diferentes contextos cronológicos e culturais existentes no concelho de Braga, o último dos quais é o conjunto das Sete Fontes, que tão ameaçado de descaracterização hoje se encontra.

Recordo, a propósito, palavras do Sr. Professor ditas em 1961 e reproduzidas na revista “Bracara Augusta” (11/12, 1960-1961, p. 195):

Se Braga é uma relíquia do passado, é, por isso mesmo, uma esperança do futuro;

– o último artigo é da minha autoria, através do qual dou a conhecer a história e o conteúdo do “Boletim da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Braga”, publicado entre 1920 e 1934, um produto da política cultural da 1ª República.

Seguem-se as habituais secções da revista, começando com a crónica da sessão de entrega do Prémio de História Contemporêna 2007, a primeira em que o Senhor Professor não pôde estar presente (já antes tinhamos sentido a falta do Doutor Victor de Sá que o criou e do Prof. Hélio Alves que tão dedicadamente o organizou e consolidou).

Curiosamente, em 2007, o trabalho vencedor, da autoria de J. A. Ribeiro de Carvalho, estudou o papel de uma revista dos jesuítas, “Novo Mensageiro do Coração de Jesus”, nas vésperas da República.

Na secção de Notícias dá-se conta da valiosa actividade das unidades culturais que, com escassíssimos meios, realizam autênticos milagres, mantendo uma presença constante, viva e actuante em Braga e no Minho.

Termina a revista com um presente para o Sr. Professor, concretizado no seio da Biblioteca Pública de Braga, pelo dr. Elísio Araújo.

Trata-se do índice de autores e títulos dos 40 primeiros números da “Forum”, de cuja necessidade já o Sr. Prof. se tinha referido – por aqui podemos verificar que o Sr. Professor contribuiu com 23 textos para a revista, cujo colaborador número um é F. Sande Lemos, com 40 trabalhos publicados.

Como sempre , para materializar este trabalho, contamos com a bem conseguida capa e arranjo gráfico de Luís Cristovam, com o empenhamento e competência da Dª Alice Soares e demais pessoal da Reprografia e com a colaboração dedicada das suas secretárias, dª Isabel e dª Natália.

Aqui está, senhor Professor Lúcio, o que lhe queremos oferecer e dedicar.

É fácil perceber, depois de ouvir as palavras do Senhor Prof. Adriano Moreira, mas sobretudo depois deste convívio de mais de 20 anos consigo no Conselho Cultural, as saudades que sentimos, a falta que nos faz, como verdadeiro homem da Universidade, mas em especial como amigo e conselheiro de todas as horas.

É por isso, Senhor Professor Lúcio, que, embora se tenha ausentado da nossa companhia, permanece bem vivo e para sempre na memória, no coração de todos nós.

Henrique Barreto Nunes

[1] Intervenção na sessão de homenagem realizada na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em 24 Julho 2009

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