Como me tornei bibliotecária

Tinha eu talvez 11 anos, e passava férias com os meus três irmãos, estudantes em Coimbra. O meu irmão mais velho, que na altura estagiava na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, levava-me com ele, todas as tardes, para a biblioteca. Ali passei tardes maravilhosas, requisitando álbuns sobre álbuns do Astérix, do Lucky Luck e do Tintin, a mais pequena utilizadora de uma sala toda em tons de castanho, que na altura me parecia imensa. O meu irmão deixava-me então, depois do almoço, na sala dos catálogos, e passava a buscar-me pelas seis da tarde. Mas um dia, eram seis e quinze, e ele não tinha ainda aparecido. Às seis e meia fui perguntar ao senhor do balcão se tinha passado por lá um rapaz alto de bigode, imaginando que ele não me tivesse visto e andasse à minha procura. Mas não, nenhum rapaz. Às sete horas fechava a biblioteca e, do meu irmão, nem sinal. Nada atrapalhada, lá me convenci a regressar a casa, sozinha, descendo a correr a escadaria monumental da Universidade. Voltei a encontrá-lo apenas depois do jantar: tinha-se esquecido de mim e só ao ver-me se lembrou. Pois, ainda hoje por aqui ando, esquecida no labirinto da biblioteca: um delicioso esquecimento, por sinal.

Manuela Barreto Nunes
Professora auxiliar na Universidade Portucalense, onde coordena o Curso de Especialização em Ciência da Informação, o Mestrado em Educação e Bibliotecas e o Doutoramento em Documentação, este em colaboração com a Universidade de Granada. É Directora da Biblioteca-Geral da mesma Universidade.