Impensável atentado científico e cultural

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José Marques*

Desde os últimos dias do passado mês de Janeiro, continuam a chegar inúmeras manifestações de surpresa e repúdio pela decisão da Direcção do King’s College, de Londres, de, a partir do próximo mês de Agosto, suprimir a cadeira de Paleografia, não obstante o reconhecido prestígio internacional, a que souberam e conseguiram elevá-la os eminentes professores Julian Brown e Albina de la Mare, êxito, actualmente, prosseguido por David Ganz.

Segundo se pode verificar pelas mensagens dirigidas à Direcção deste importante estabelecimento de ensino superior, além de motivos económicos, concretizados no anúncio do corte de financiamento, parece estarem subjacentes a esta decisão uma miopia cultural e uma mentalidade verdadeiramente empobrecedora quanto à importância da Paleografia, em relação aos estudos historiográficos, linguísticos e culturais, com particular incidência, nos estudos clássicos, medievais e modernos, para referir, apenas, os mais evidentes e sensíveis.

Não admira, por isso, que, desde os Estados Unidos da América, da Rússia e, obviamente, da Inglaterra e da Europa, professores universitários, directores de bibliotecas e arquivos e responsáveis por centros de investigação e de associações científicas internacionais não tenham cessado de manifestar surpresa, indignação e repúdio por tão inesperada e impensável decisão.

Tendo passado toda a minha carreira universitária, além de outras disciplinas, ligado ao ensino da Paleografia e da Diplomática, quer nos cursos de licenciatura e de mestrado em História Medieval e Moderna e no Curso de Ciências Documentais, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, quer em cursos intensivos, ministrados na Faculdade de Filosofia de Braga, na Pontifícia Biblioteca Vaticana, na Universidade Federal de Niterói (Brasil) e, ainda, em dois cursos de Diplomática, na Universidade dos Açores; pertencendo, além disso, às Comissões Internacionais de Paleografia e de Diplomática, não poderia deixar de lamentar e censurar tão nefasta decisão administrativa, cujas consequências científicas e culturais – e na imagem internacional do próprio King’s College -, que os seus responsáveis, preocupados, apenas, com os quantitativos monetários, nem sequer imaginam, não poderia deixar, dizia, de manifestar também a minha solidariedade aos professores atingidos por tal medida.

Não é a primeira vez que circulam notícias de projectos atentatórios desta natureza. O primeiro surgiu em Munique, Alemanha, com a pretensão de eliminar a cátedra, então, ocupada pelo Prof. Walter Koch, grande especialista em Paleografia e Epigrafia. Depois surgiu a notícia do brutal atentado que o governo do Estado de Baden-Würtemberg, na Alemanha, se preparava para cometer, vendendo 3 500 dos 4 200 manuscritos, isto é, livros manuscritos medievais da Biblioteca de Karlsruhe, que a reacção internacional conseguiu travar. Ao assunto dediquei, neste Diário, o artigo Escândalo político e cultural, publicado, em 14 de Outubro de 2006, (p. 6). Não foi necessário aguardar muito para ter de alinhar – desta vez, entre nós -, na defesa dos Institutos de Clássicas das Universidades de Coimbra e de Lisboa. Mais recentemente, correu mundo na Internet o SOS em defesa do latim no ensino secundário em França. Agora, o alarme vem da Inglaterra, onde a decisão de suprimir a cadeira de Paleografia, atendendo à potência política e económica que ela é ou, pelo menos, como tal era considerada, seria impensável.

E não se diga «isso é lá com eles», porque, entre nós, embora sem escândalos aparentes, os atentados contra esta e outras disciplinas, absolutamente indispensáveis para o progresso das ciências históricas, dos estudos filológicos e filosóficos e da necessária publicação de fontes latinas (antigas, medievais e modernas) e portuguesas (medievais e modernas), mercê das restrições decorrentes da aplicação do processo de Bolonha, ficaram reduzidas a um semestre ou menos ainda, quando não desapareceram pura e simplesmente, sem qualquer estertor. Note-se que a Paleografia é uma daquelas disciplinas em que não basta ministrar um certo número de aulas. É preciso trabalho prático, devidamente acompanhado. Mas esse é outro assunto.

Neste momento, mais do que expor ideias próprias, gostaria de divulgar posições assumidas por alguns dos numerosos intervenientes neste movimento de defesa da cadeira de Paleografia do King’s College, como Vladimir I. Mazhuga, do Instituto de História de Saint-Petersburg e da Academia de Ciências da Rússia, cujas preocupações, se o tempo e o espaço o permitissem, valeria a pena registar, como testemunho de alguém que, durante muito tempo, teve imensas dificuldades nos contactos com o Ocidente. Além deste, outros professores se esforçaram por demonstrar aos responsáveis a gravidade da sua contestada decisão, no presente, e, sobretudo, nas tremendas consequências futuras. Nesse sentido, são de referir os dados quantitativos aduzidos por C. W. Dutsche, Director Executivo da Biblioteca de Manuscritos Medievais e da Renascença e Livros Raros da Universidade de Columbia, Nova York, e a posição firme – como convinha -, mas, ao mesmo tempo, verdadeiramente diplomática, de Denis Muzerelle, responsável pela secção de «Paleografia Latina» do Institut de recherche et d’histoire des textes (CNRS), de Paris, e Membro da Comissão Internacional de Paleografia Latina, que tendo demonstrado a premente e actual necessidade de paleógrafos, solicitou que os dados aduzidos na sua exposição sejam tomados em consideração, antes de ser consumada a decisão final.

Por sua vez, Patrick Andrist, Director da Burgerbibliothek, de Berna – Suiça, depois de assinalar o trabalho fantástico aí realizado por filólogos, historiadores da Arte e paleógrafos, em colaboração com especialistas em ciências informáticas, na esperança de ver revogada a lamentável e nefasta decisão, concluiu afirmando:- Enfin, la ligne de front pour la défense des «sciences des manuscrits» ne passe pas entre les bibliothèques et les universités: si nous ne parvenons pas à maintenir et à développer nos disciplines ensemble, nous serons tous perdants!

Mais contundente, depois de fundamentar a defesa da disciplina ou cadeira de Paleografia, é a posição de Jeffrey Hamburger, catedrático na Universidade de Harward, entre outros títulos, Membro da Academia Medieval da América, que, apesar de propor a revogação desta trágica e contestada decisão, não se coibiu de terminar a sua mensagem com estes termos: – «To eliminate the study of paleography in Great Britain, wich is, in effect, what your decision will cause to come about, would – pardon my bluntness – represent an unforgivable act of cultural iconoclasm, nihilism, philistinsm and shortsightedness. Indeed, your assault on the Humanities in general seems part of a program to reduce King’s to a pauper or, perhaps, something closer to a vocacional school. That said, should you reverse your decision or at least make a concerted effort to find any way possible to forestall it, you will earn the lasting gratitude of large group of students and scholars wordwide.

To coin a phrase: do the right thing»!

A indignação patente nestas palavras, compreender-se-á melhor, se tivermos presente que para o autor, além de outros aspectos fundamentais, invocados na citada mensagem, esta decisão constitui também uma afronta aos seus antigos professores, Julian Brown e Albinia de la Mare, e ao colega e amigo, David Ganz.

Para não alongar este assunto, permito-me transcrever a conclusão da tomada de posição de Marilena Maniaci, Presidente da APICES – (Associação Internacional de Paleografia – Cultura Escrita Sociedade), que reune muitos dos mais qualificados estudiosos, bibliotecários e cultores das disciplinas ligadas ao livro e ao documento medieval, quer trabalhando em universidades, bibliotecas, arquivos e centros de conservação europeus e internacionais. Tendo manifestado a surpresa causada nos meios universitários e culturais pela notícia do corte de financiamento pelo King’s College à cátedra de Paleografia e feito o necessário protesto, seguido do indispensável gesto de solidariedade para com os docentes atingidos por tal decisão, após a justificada defesa da Paleografia, terminou a sua tomada de posição com estas palavras: – «Il taglio delle risorse finanziarie assegnate alla cattedra di Paleogrfia costituice pertanto non solo per la gran Bretagna, ma per l’intera comunità scientifica internazionale, un evento deprecabile, fonte di un danno gravissimo per la ricerca e, più in generale, di un impoverimento per il mondo della cultura. A nome di APICES mi permetto quindi di formulare l’auspicio che le autorità accademiche rivedano la decisione assunta e che la sopravvivenza della cattedra di Paleografia continui ad essere ritenuta una delle priorità irrinunciaiabili della propria offerta formativa, consentendo al King’s College di mantenere, anche per il futuro, il proprio ruolo affermato di centro di eccellenza e di impulso per gli studi paleografici a livello internazionale».

Com estas breves notas, além de me associar ao movimento internacional em defesa da cátedra de Paleografia do King’s College, como centro de ensino e de cultura de excelência e de manifestar a minha solidariedade aos docentes atingidos neste inesperado contexto, pretendo fazer chegar à opinião pública portuguesa a expressão da luta titânica que se trava no silêncio do correio electrónico contra mais este atentado científico e cultural, certamente, desconhecido da generalidade dos leitores. Em última instância, poderemos dizer que são também as Humanidades que, em muitos dos seus aspectos essenciais, estão em causa, e isso será muito grave para a sociedade no seu conjunto.

Resta a esperança de que os responsáveis, perante este coro de reacções, reconheçam, em tempo oportuno, o tremendo erro cometido e tenham o bom senso de evitar a sua concretização definitiva.

Da minha parte, tal como aconteceu em situações similares anteriores, não deixarei de fazer chegar à Embaixada Britânica, em Lisboa, este texto, com o pedido do seu envio à Direcção do King’s College e às mais altas instâncias governamentais inglesas, com funções tutelares neste domínio.

Braga, 5 de Fevereiro de 2010.

* Prof.Catedrático (ap.) da Fac.de Letras do Porto

In Diário do Minho, Braga, de 09 de Fev. 2010, respectivamente, pp. 24 e 20

(A BAD Norte agradece ao Professor Doutor José Marques a disponibilidade da cedência deste artigo que muito honra o blogue da Associação)

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Desde sempre que tudo me é leitura. As pautas musicais que leio para tocar piano, as imagens que copio de algum blogue artístico, os filmes que visualizo na web, os fabulosos links que nos levam a mundos maravilhosos e os livros de poesia,  que dizem que são os mais acérrimos inimigos dos bibliotecários!
Mas não é a leitura a razão  porque sou profissional da informação!

É uma decisão social de transformação e construção da realidade, uma tentativa de melhorar o mundo para outros puderem colher a informação e se servirem dela para se metamorfosearem, e assim sucessivamente, em reciclagens contínuas e em movimentos circulares, toda a sociedade lucrar com o benefício de cada um, no crescimento da sua humanidade e conhecimento.

Parece uma teoria marxista! Continua a ser uma teoria política e social para me justificar profissionalmente e humanamente. Gosto muito de ler um escritor francês que diz que a grande parte da sua biblioteca está no céu. Uma biblioteca de nuvens. Ora aí está mais uma razão que me fascina.

A razão porque sou profissional da informação também não é espiritual, como poderiam estar a pensar depois da citação anterior. O meu maior problema é que tudo nesta profissão me fascina e assim vou procurando razões para me justificar como pessoa.

Manter vivas as bibliotecas, já conhecem este lema do Viva Biblioteca Viva!
Gosto de o fazer todos os dias, manter vivos todos os que as procuram. Ora aí está outra justificação, de teor biológico!

A justificação não é racional nem lógica. Ainda hoje a justificação que encontro é um lugar de procura.

Vou continuamente procurando saber porque sou.

Luísa Alvim,
que trabalhou e trabalha em bibliotecas maravilhosas e vivas, e que tenta manter sempre um lugar com luz para alguém que chega e precisa de informação
.

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Costumo dizer aos amigos… que sou uma felizarda porque tenho uma profissão que tem tudo a ver comigo e com os meus interesses: vivo no meio dos livros, dos filmes ou pesquisando informação na Internet… e contacto diáriamente com dezenas de pessoas, com interesses diferentes… e da diversidade nasce o conhecimento. Acrescente-se que todos nós já quisemos mudar o mundo mas a realidade mostrou-nos que isso não passa de uma utopia mas sempre podemos ajudar a mudança do “mundo” à nossa volta. Termino dizendo que esta opção de vida, não nasceu de repente mas pouco a pouco… foi o desaguar de um rio que começou pela arqueologia, pela história, pela aventura… paixões descobertas nos livros lidos nas férias aos 10/11 anos.

Isabel Costa
Responsável pela Biblioteca Municipal de Valença

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Como uma química se tornou bibliotecária?

Estava de chegada ao Porto e sonhava exercer actividade profissional na área da Química Orgânica. Licenciara-me em Química, na Universidade de Lisboa, e o meu mundo era o das equações, dos tubos de ensaio, das provetas e dos Erlenmeyers. As minhas aspirações profissionais situavam-se entre o trabalho e a investigação no laboratório.
Estávamos no Inverno, fazia frio, e eu percorria em passo rápido os longos corredores do edifício secular da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, quando escutei um chamamento vindo de um gabinete:

– Luiza, entre! – convidou-me um professor. – Sei que chegou há pouco tempo de Lisboa e ainda não está a trabalhar. Temos aqui um novo projecto! Precisamos de informatizar a biblioteca do Departamento de Química. Será que está disponível? Está aqui uma edição das ?Regras Portuguesas de Catalogação?, ora veja! Fiquei embaraçada. Tinha estudado tanto, noites a fio a tentar entender cálculos, fórmulas, teoremas e teorias de eminentes prémios Nobel e agora não sabia o que eram as ?Regras Portuguesas de Catalogação?. Folheei o livro, estava curiosa. Ainda me senti mais confusa.

– Então, que me diz? Tenho um financiamento para automatizar o catálogo da biblioteca com o programa Mini-Micro CDS/ISIS, é uma parceria com a Biblioteca Nacional ? afirmou o professor com entusiasmo.

No meu íntimo continuava confusa. Mas era um bom desafio. Afinal o que eu tinha aprendido no meu curso superior, era a estudar! Pois então, continuaria a estudar e a descobrir ?o apaixonante mundo das Bibliotecas e das Ciências da Informação.

Luiza Baptista Melo

Bolseira da FCT |Universidade de Évora
Técnica Superior |Faculdade de Ciências |Universidade do Porto

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Aida Alves apresenta


Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva

A Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva abriu oficialmente as suas portas ao público em 21 de Dezembro de 2004. Nasceu da união de vontades da Universidade do Minho e da Câmara Municipal de Braga, que em 1990 manifestaram o interesse, junto do Ministério da Cultura, na integração de Braga no projecto Bibliopolis, lançado pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas para os grandes centros urbanos (quatro a nível nacional), tendo em vista a adesão à Rede Nacional de Leitura Pública.

Vocacionada e equipada segundo os mais modernos padrões internacionais, tem entre os seus objectivos a dinamização da leitura e a atracção de novos públicos, bem como o de criar as estruturas conducentes à concretização de uma Rede de Bibliotecas Escolares no concelho de Braga.

Situada no centro histórico de Braga, foi habilmente concebida pelo arquitecto Mário Abreu, de modo a preservar e expor os vestígios arqueológicos encontrados no local.

Este espaço, concebido para acolher simultaneamente 600 utentes de perfis diversos e em diferentes actividades, dispõe de três salas de leitura para adultos com capacidade de 200 lugares, numa das quais se disponibilizam cabinas de leitura individual, uma sala de leitura infanto-juvenil com 65 lugares e ainda um espaço autónomo especialmente destinado a actividades de animação infantil com 30 lugares. Uma sala de expressão plástica para actividades em grupo complementa o espaço destinado ao público mais jovem.

A audição de um CD, o visionamento de um filme, estão disponíveis em amplos e cómodos espaços concebidos para esse efeito e equipados com a mais moderna tecnologia e com capacidade para 30 utentes em utilização simultânea.

Um auditório com 160 lugares, uma sala de exposições e um bar com amplo espaço envolvente, onde em confortáveis sofás poderá tomar o seu café enquanto lê um jornal, uma revista ou um livro, completam o equipamento destinado ao público.

Nesta biblioteca poderão ser consultadas as obras publicadas em Portugal desde 1975, parte significativa em regime de livre acesso às estantes, num total de cerca de 250.000 obras. Estão também disponíveis 1.500 CD e DVD.

Ao dispor do utente existem 60 computadores com acesso às mais variadas fontes de informação disponíveis na Internet. Sendo este um espaço equipado com rede sem fios, o utente poderá fazer-se acompanhar do seu computador pessoal e navegar livremente na Rede.

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Empowerment: Porque construo e potencio a capacidade de outras pessoas usarem informação através de formação no uso de ferramentas de acesso a informação pré-seleccionada para as suas necessidades.

Advocacy: Porque faço os impossíveis, junto de utilizadores de informação, para deixar patente o valor dos profissionais que fazem a colecção organização e tratamento dessa informação que lhes permite, quase que por magia, encontrar os dados que precisam quando precisam, fazendo desse modo crescer valor das suas organizações.

Belief: Os serviços de informação (e seu profissionais) que acompanham a aventura humana desde há 2500 anos podem mudar de nome, por força da modernidade, mas nunca poderão negar que estão apoiados em técnicas e saberes desenvolvidos em Ninive, Alexandria, Pergamon, Cesareia, etc.

Júlio dos Anjos
Formador

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Acordar de manhã, nos dias úteis da semana, estar atenta à renovação diária da informação, adequá-la aos potenciais interessados, reproduzir nova informação, comunicá-la em tempo útil, através das ferramentas mais adequadas ao interlocutor, armazená-la conveniente e seguramentemente, de forma a ser recuperada sempre que necessário for. Compete ao profissional da informação estar atento, ser sensível ao circuito da informação e às pessoas que a procuram, acompanhar a evolução das tecnologias, das ferramentas de gestão, saber comunicar, cumprir a missão da instituição ao qual está ligado, com profissionalismo e ética.

Aida Alves

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