Notas soltas sobre Ciência da Informação (2)

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Armando Malheiro da Silva |Faculdade de Letras | Universidade do Porto| Colaborador do blogue

1. Ainda o DeltCI Na primeira nota, com que inaugurei este espaço dento do oportuníssimo blog da BAD-Norte, tive o ensejo de apresentar o projecto DeltCI como contributo importante para o debate epistemológico em torno da Ciência da Informação trans e interdisciplinar que venho defendendo e postulando. A aposta terminológica é imprescindível ao processo de construção científica e deve reflectir os conceitos operatórios, as teorias, os modelos e toda a utensilagem teórico-metodológica que permite a uma disciplina explorar o seu campo de estudo e fornecer, consequentemente, respostas práticas aos profissionais que tenham nela a sua matriz formativa. Não deve, por isso, surpreender que, na lista dos verbetes, predomine o conceptual em detrimento do instrumental e da miscelânea terminológica constituída por termos oriundos de diversas artes, técnicas e profissões. Basta focar alguns exemplos: Artefacto, Avaliação, Campo (de estudo científico), Ciências da Comunicação, Ciências Documentais, Colégio Invisível, Comportamento Informacional, Conhecimento, Dado (1), Dado (2), Discurso, Documento, Era da Informação, Fenômeno, Formação Poliédrica, Gestão da Informação, Infometria, Informação, Interactividade, Leitura, Linguagem, Literacia Informacional, Memória, Mentefacto, Método Quadripolar, Museu Virtual, Necessidade, Organicidade, Paradigma, Propriedades (da Informação), Série, Sistema, Sistema de Informação, Situação, Suporte, Tipo Informacional e Valor da Informação. Há também exemplos que ilustram conceitos em uso que, dentro da concepção transdisciplinar de C.I. , são anacrônicos e precisam ser substituídos por outros. É o caso de Colecção e de Fundo, substituíveis por Sistema de Informação. Este elenco é uma amostra apenas que visa comprovar o esforço que urge fazer de dar consistência e unidade interna à CI, não obstante as suas fragilidades e limitações. Temos de reconhecer que continua a faltar um consenso em nível mundial sobre a dimensão epistemológica e o alcance teórico-prático desta ciência emergente. E esse consenso falta por vários motivos ou razões, avultando, como uma das principais, a practicidade profissional imbuída, até à raiz, de senso comum e de subjectividade incontrolável. Uma prática profissional que se tem imposto aos teóricos e, em especial, aos poucos autores que têm ousado entrar pelo campo imprescindível, mas demasiado escorregadio e armadilhado da reflexão em torno da natureza e dos limites do conhecimento científico sobre a informação e respectivo fenômeno info-comunicacional. E tem-se imposto de tal forma que dificilmente é questionada pelos autores a matriz profissional da disciplina: aceitam todos essa matriz e partem dela directamente para a assunção da interdisciplinaridade, firmados na observação empírica e na experiência pessoal de que um bibliotecário fornece informação de diverso tipo, codificada em línguas diferentes e destinadas a utilizadores de contextos díspares, o que implica ter de estabelecer relações com saberes e disciplinas várias. Isto é um facto, mas só ilusoriamente diz respeito à condição interdisciplinar da C.I. considerada dentro de um estatuto de cientificidade, porque a abertura e a aquisição de competências linguísticas, e até científicas, que um bibliotecário precisa possuir, enquanto profissional a desempenhar as tarefas de mediação que lhe competem num qualquer serviço de Biblioteca ou Centro de Documentação convencional, não decorrem de um corpus teórico-metodológico coerente e unitário próprio e ensinado em nível de graduação e de pós-graduação, mas tem a ver sobretudo com a necessidade prática de adaptação ao contexto profissional e de compreender o conhecimento dos outros com quem, ou para quem se trabalha. Falar de interdisciplinaridade da CI exige uma pergunta prévia e uma prevenção indispensável: de que falamos exactamente? Se nos referimos ao âmbito profissional específico de bibliotecários, de documentalistas ou de arquivistas, é natural que estes assimilem práticas e conhecimentos produzidos por quem faz e usa os documentos que eles devem descrever, mediar e conservar; mas esta abertura ao outro e esta assimilação e diálogo através da “linguagem” do outro não se inscreve no sentido científico da interdisciplinaridade, conceito que implica, em nível de pesquisa, a convergência de disciplinas diferentes num problema comum, que tenderá a ser resolvido e explicado pelo cruzamento de abordagens diversas, mas pontualmente complementares. Neste sentido mais preciso, será que é apropriado dizer que a CI é, por exemplo, uma interdisciplina? Isso significa o quê? Que é um somatório fragmentado e diferenciado de abordagens disciplinares que convergem sobre diversos problemas? Se for isto, o simples uso do plural poderia introduzir alguma coerência e ainda assim não seria suficiente para salvar este equívoco epistemológico. Mas, persistir no singular para significar um somatório de abordagens múltiplas é praticar desde logo um erro crasso de concordância de número… No nº 5 da revista Prisma.Com publiquei um artigo intitulado Ciência da Informação e Sistemas de Informação: (re)exame de uma relação disciplinar, no qual, citando Olga Pombo a propósito do sentido adequado de conceitos como interdisciplinaridade, interdisciplina, transdisciplinaridade e outros, posicionei-me desta forma sobre esta questão:

Este termo [interdisciplina] relaciona-se com o conceito de interdisciplinaridade e, portanto, só pode significar logicamente um conjunto de disciplinas autônomas (entre si) – e nunca uma só disciplina – reunidas temporariamente para resolver um problema ou um conjunto específico de problemas. Em contraponto, defendemos que a CI é essencialmente uma transdisciplina constituída pela acção integradora de outras existentes e com afinidades essenciais entre si, que busca, por esta via, uma identidade científica própria, e é, por ser uma disciplina com identidade científica própria, e é, por ser uma disciplina com identidade mínima, que pode participar activamente em múltiplos programas interdisciplinares e intercientíficos, para usarmos as categorias atrás vistas através do contributo de Olga Pombo, sem se diluir neles e beneficiando com os efeitos/resultados dessas apostas.

Um esforço imperioso de clarificação se impõe neste ponto, como em tantos outros. A permeabilidade da profissão de bibliotecário, de documentalista ou de arquivista às praticas e saberes de outros profissionais não se encontra no mesmo plano do exercício de interdisciplinaridade. Este situa-se dentro da actividade científica da pesquisa e da compreensão/explicação dos problemas teórico-práticos que constituem e enriquecem, substancializam um campo cientifico propriamente dito.

2. As surpreendentes Actas do 3º EDIBCIC – Ibérico As considerações anteriores ajustam-se, como preâmbulo, à recensão das Actas do III Encontro em Educação e Investigação em Bibliotecologia, Arquivística, Ciências da Informação e Documentação de Iberoamérica e Caribe, realizado de 5 a 8 de Maio, na Faculdade de Tradução e Documentação da Universidade de Salamanca. O adjectivo surpreendente é aquele que, à falta de melhor, exprime bem algo de raro… O volume, editado pelas Ediciones Universidad Salamanca, de capa castanha com a foto, a roxo, de um carro mais a legenda, a amarelo, “Ao volante do Chevrolet pela estrada de Salamanca” (adaptação de uns versos de Fernando Pessoa), surpreende desde logo por ter sido distribuído gratuitamente e em abundância (mais de um exemplar por pessoa) aos participantes no segundo dia do Encontro e também pela espessura (851 págs.) resultante, na prática, de uma significativa adesão de participantes vindos de vários pontos de Espanha, de Portugal e da América Latina, com relevo para o Brasil. Por comparação com o primeiro e o segundo primeiro e segundo Encontros, o acréscimo foi exponencial, além de ser este o único até ao momento a publicar prontamente as comunicações enviadas e aceites por um comitê científico. De quatro ou cinco pessoas reunidas em Salamanca, no alegado primeiro evento, aos cerca de cem que, de novo em Salamanca e poucos anos depois, fizeram comunicação aceite e incluída nas actas, há a registar um extraordinário salto de afirmação e de consolidação do intercâmbio científico e formativo no campo das Ciências da Informação e da Documentação, de acordo com a expressão plural e indefinida em uso em Espanha e em vários países da América Latina. Quatro grandes temáticas concentraram o interesse dos docentes e investigadores participantes no Encontro, a saber: (1) Formación, com subdivisões (1.1 Adaptación al espacio Europeo de Educación Superior; e 1.2 – Experiências de innovación docente); (2) Competencias Profesionales y Mercado Laboral; (3) Investigación; e (4) Cooperación y Estúdios Comparados. Prosseguirei, em próxima nota, a recensão breve e apelativa desta obra importante, mas, mesmo para rematar, não posso deixar de referir que, num total de 62 comunicações publicadas, só duas versam sobre a epistemologia da Ciência da Informação ou da Informação e Documentação (Epistemologias posmodernas en Información y Documentación, por Rosa San Segundo, p. 675-684; e Produção científica brasileira na temática Epistemologia da Ciência da Informação, por Gustavo Henrique Freire e Armando Malheiro da Silva, p. 685-690), o que, por si só, é bastante revelador do pouco interesse, ou da extrema dificuldade sentida pelos docentes e investigadores em Informação e Documentação, tanto em Espanha como em outros países, de abordarem um tópico sem dúvida essencial e indispensável à sobrevivência do campo de C.I., mas espinhoso e movediço…

Notas soltas sobre Ciência da Informação 1

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Armando Malheiro da Silva |Faculdade de Letras | Universidade do Porto | Colaborador do blogue

1. O desafio e a idéia

De forma muito simpática e irrecusável a Drª Jacinta Maciel lançou-me o desafio sob a forma de convite para participar neste blog, que em boa hora a Delegação Regional Norte da BAD decidiu criar. Sei bem quanto me é difícil, por manifesta falta de tempo, agarrar como gostaria o desafio posto, mas tive logo a idéia de colaborar com uma rubrica permanente, tecida ao correr do teclado, sobre as idéias, publicações, eventos, iniciativas e debates que me forem tocando relativas ao campo cientifico em que me situo como docente e investigador.

As notas serão soltas, mas – e tinha de haver um aparente paradoxo – amarradas a uma perspectiva epistemológica e um posicionamento teórico-metodológico e formativo sobre CI a que o meu nome e o das colegas com quem trabalho se acham claramente ligados. Serão soltas obviamente porque não há uma agenda, um plano prévio definido com detalhe, elas ficarão alinhadas algo aleatoriamente, mas presas ao eixo de um propósito: debater e esclarecer a possível (re)construção da CI.

2.

Em 6 de Novembro de 2007 foi publicamente lançado este projecto, que surgiu por volta de 2003 na Universidade Federal do Espírito Santo, sedeada em Vitória, Brasil, graças ao empenho e entusiasmo de dois professores do Departamento de Ciência da Informação – Attilio Provedel e Lúcia Miranda Correa. Ao início a idéia era bem mais específica e modesta, pois tratava-se de recensear termos de Arquivologia e colocá-los on-line para atender as necessidades dos alunos e o combate sentido por esses colegas contra a perturbadora dissonância conceptual reinante nessa disciplina. Diferentes significações para a mesma palavra, alterações de significado com a passagem do tempo, equivocidades semânticas e técnicas constituíam um entrave ao bom exercício da docência e ao desejável sucesso compreensivo por parte dos alunos.

Em 2004 associei-me ao Projecto e, com estes colegas e queridos amigos, a aventura tomou o rumo que é hoje possível apreciar, graças ao imprescindível contributo do Paulo Sousa, na seguinte url:

http://www.ccje.ufes.br/dci/deltci/index.htm

Não houve uma ruptura com a idéia inicial, apenas uma ampliação e a assunção de um posicionamento epistemológico claramente assumido. Postula-se, através deste Dicionário Electrônico, a possibilidade de uma CI que não é a disciplina autônoma em relação à Biblioteconomia ou à Documentação ou ainda à Arquivologia e eventualmente a outras mais e que não é a disciplina surgida após 1945, nos Estados Unidos da América, associada ao processamento automatizado da informação (é claro que esta variante surgiu e está bem documentada, mas o que se contesta é a alegada identidade própria ou exclusiva) e fundada num paradigma diverso, por exemplo da Biblioteconomia, como alguns insistem em defender sem que apresentem uma conceituação consistente de paradigma e mostrem a profundidade dessas supostas (ou convenientes?) diferenças. Postula-se, enfim, uma CI transdisciplinar, o que significa que ela resulta necessariamente do movimento de integração e de (re)construção das disciplinas práticas que acumularam um palpável lastro desde o séc. XIX e ao longo do XX – a Biblioteconomia/Bibliotecologia, a Documentação e a Arquivística. E ainda a tal específica Information Science norte-americana. Também, não está de fora uma certa interpenetração com a interciência em expansão desde os anos oitenta – os Sistemas de Informação. Entendemos, pois, que a CI é ou tende a ser uma transdisciplina, com alguma unidade teórico-metodológica e um objecto próprio. E com esta base matricial unitária a sua vocação interdisciplinar surge mais e melhor reforçada, porque é óbvio que o fenômeno humano e social, consubstanciado pelos conceitos de informação e de comunicação ou pela expressão processo info-comunicacional, convoca múltiplas e diferentes abordagens científicas e filosóficas que podem complementar-se, constituindo um fecundo e largo campo interdisciplinar. Mas admitir isto não implica a adesão ao modismo pós-modernista de adornar a CI com o rótulo de interdisciplina, por muito cientifica e intelectualmente correcto que possa ser ou seja. Considerar a CI uma interdisciplina é condená-la, na dimensão pratica e acadêmica, a um não-lugar, a uma vacuidade espumosa que uma vez desfeita deixa ver as âncoras das disciplinas dominantes que se escondem por baixo da espuma. Eis um simples e rápido exemplo: um estudo sociológico sobre as práticas relacionadas com a produção e uso numa Organização não é um estudo de CI porque incide sobre tais práticas, mas um estudo sociológico por ser esta a matriz teórico-metodológica e disciplinar que guia e fundamenta a pesquisa. Porém, este equívoco, fácil de desmontar anda à solta e é bem visível em dezenas e dezenas de dissertações de Mestrado e teses de Doutoramento em Espanha e no Brasil, para citar casos que nos influenciam mais directamente.

Tinha de gastar algumas linhas com a prevenção epistemológica, pois ela explica a importância de um empenho terminológico essencial à actividade científica. A terminologia não se reduz a um conjunto de palavras criadas e usadas por um grupo mais ou menos fechado de pessoas. Dentro da acção da ciência, de qualquer ciência, a terminologia agrega sobretudo conceitos operatórios, teorias e modelos forjados pela operacionalização disciplinar e vitais para que o trabalho prossiga e a obtenção de novos e melhores resultados aconteça num continuum infindável… Estou a referir-me claramente à terminologia científica, sem excluir outras variantes como a profissional e técnica. Ao início, a terminologia pensada, embora se abrisse a um desiderato científico para a Arquivologia, não se afastaria, na prática, da colecta de termos enformadores de uma acção profissional e instrumental permeada pelos usos e costumes de profissões adjacentes ou confluentes como a administrativa, a judicial, a livreira, a da encadernação, etc.

A opção traçada neste Dicionário de Terminologia vai no sentido claro de uma CI transdisciplinar que tem de ser praticada com sentido crítico, muita abertura e a máxima clarividência. Sem fechamento, nem dogmatismos, o que implica o apelo a um processo cooperativo. Acolhem-se sugestões e críticas. Acolhem-se e estimulam-se propostas de novos verbetes. O grupo de colaboradores permanentes poderá crescer e, quanto maior for, melhor se cumprirá o propósito profundamente científico de agregar muitos e diferentes olhares para uma visão conjunta e coerente.

Não confundo ciência com profissão, mas sei quanto os profissionais da Informação precisam de consolidar um conhecimento compreensivo e crítico sobre o que fazem e os desafios complexos que a Era da Informação em curso não cessa de lhes apresentar. Possa o DeltCI ser um pequeno, mas útil e estimulante meio de resposta a algumas dúvidas e profundas necessidades. Para tanto espero que a funcionalidade Comentários seja exaustivamente usada. Espero que os Textos, subdivididos em três secções – Origens do Projecto, Da Terminologia e Da Teoria à Prática (nesta secção há escolhas em sintonia com a perspectiva transdisciplinar, mas há tolerância e diálogo com outras perspectivas)- sejam visitados, lidos e discutidos, ao mesmo tempo em que o seu número irá sendo aumentado. Espero que as notícias tenham o impacto que as justifiquem. E, a facilitar a usabilidade do site, a Pesquisa permita agilizar o acesso ao conteúdo certo e pretendido, podendo até surpreender.

O imperativo da globalização envolove vários factores e a dominância de uma língua cada vez mais global, que é um deles, impõe-se e exige uma resposta: está, por isso, em curso a tradução dos verbetes para inglês. E é possível ainda ter uma versão em espanhol.

Os verbetes que já estão elencados, e os que virão a sê-lo, têm de ser lidos dinâmica e hipertextualmente como é próprio do suporte digital e da navegação pelo “espaço de fluxos” (Manuel Castells) ou do ciberespaço (Pierre Levy). Eles são, aliás, sujeitos a revisões e a acréscimos tanto por iniciativa de autores, como de leitores, ambos em inédita e estreita interactividade.

Que o DeltCI seja, como tem de ser – uma obra aberta…

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