Software open source – o copo meio cheio ou meio vazio?

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Susana Martins e Lino Oliveira | Escola Superior de Estudos Industriais e de Gestão| Instituto Politécnico do Porto | colaboradores do blogue

Actualmente a maioria das instituições depende das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) para proceder à gestão diária da sua actividade. Para Castells (2003) a emergência de um novo paradigma tecnológico (…) permite que a própria informação se torne num produto do processo de produção.

Castells (2002) entende que, neste século, o panorama tecnológico é caracterizado por um novo paradigma, em que a informação sustenta e é sustentada pelas novas tecnologias e no alcance de penetração destas numa lógica de redes.

De facto, no actual contexto, a utilização das TIC e, concretamente de Software Open Source (SOS), é tida como uma realidade, algo exequível e ao alcance de muitos embora, no caso específico das unidades de informação, a sua maioria, recorra a software comercial. Constata-se que no mundo das Bibliotecas, Centros de Documentação e Arquivos, apesar de haver algum conhecimento sobre o assunto, a utilização de SOS nestes domínios ainda não é visível a “olho nú”, i.e., ainda não está de tal modo disseminada que faça com que estas instituições usem esse tipo de software para gerir as suas tarefas diárias.

Os sistemas de gestão integrada são ainda fruto de contactos comerciais que, para a maioria dos responsáveis destas instituições, pressupõem uma maior segurança na resolução de problemas, embora à custa de contratos de manutenção.

Ora, a nova vaga de bibliotecários, documentalistas e arquivistas, os profissionais da informação do séc. XXI dos quais fazem parte os alunos da Licenciatura em Ciências e Tecnologias da Documentação e Informação, tem oportunidade de adquirir competências tecnológicas que lhes permitem desempenhar funções de gestores de informação e de sistemas de informação, competências essas úteis para implementar de forma sólida, a utilização de SOS a custos muito reduzidos.

Para Zargaryan (2007), o verdadeiro valor do SOS é reconhecido através dos inúmeros projectos onde este tipo de software é usado para facultar pontos de acesso à comunidade, construir iniciativas de negócio e desenvolver a literacia informacional. O SOS é um dos melhores exemplos de desenvolvimento e produção aberta, colaborativa, internacional e, inevitavelmente, tem gerado muito interesse em todo o mundo, desde departamentos governamentais, passando pelo sector do negócio, académico e de investigação.

Mas há que atender que open source não é sinónimo de free software. As grandes diferenças encontram-se na ideologia, quase como se tratasse de dois partidos políticos.

Para a Open Source Initiative (OSI), open source é um método de desenvolvimento de software que combina o poder da distribuição em modo “peer review” com a transparência em todo o processo de desenvolvimento. O objectivo do open source é aumentar a qualidade, a fiabilidade, a flexibilidade, a custos reduzidos eliminando a postura predatória do intuito comercial.

Para a GNU – General Public License, o software livre pressupõe a liberdade de utilização, execução, cópia, distribuição, estudo e modificação de modo a melhorar o software. Para os utilizadores, diz respeito a quatro tipos de liberdade:

0.  A liberdade de correr o programa para qualquer fim;

1. A liberdade de estudar como o programa funciona e adaptá-lo às suas necessiddes (o acesso ao código fonte é uma condição sine qua non para este princípio);

2.  A liberdade de redistribuir cópias de modo a ajudar os demais;

3. A liberdade de melhorar o programa e publicar/disponibilizar as alterações aos demais de modo a que a comunidade possa beneficiar com isso (o acesso ao código fonte é uma condição sine qua non para este princípio).

Esclarecidas as diferenças entre open source e software livre, é conveniente que se conheçam os aspectos positivos e negativos do SOS. Assim, para Kwok (sd) este tipo de software deve ser analisado à luz de uma série de princípios base tais como:

  • Custo,
  • Funcionalidade/Usabilidade,
  • Sustentabilidade.
Open Source Prós Contras
Custo O acesso ao código fonte permite aos programadores melhorar e modificar o software. Isto pode traduzir-se numa evolução mais acelerada do produto o que culmina numa redução de custos. Existem custos ocultos, p.ex., os programadores têm que estar familiarizados com o software e com a integração de SOS com software proprietário, podendo ser necessário o  recurso a “middleware” (software intermédio), o que aumenta os custos. Novatos não estarão preparados para lidar com bugs.

Por vezes há necessidade de pagar para aceder ao serviço “apoio ao cliente”, a documentação ou manuais.

Funcionalidade/ Usabilidade As funcionalidades começam a assimilar-se às dos softwares proprietários, isto porque a comunidade global de programadores e utilizadores têm algo a dizer no que diz respeito ao desenvolvimento do software. Existem bugs e problemas de usabilidade. Os patches são vistos pelos utilizadores como um ponto negativo. Os utilizadores acostumados a certos interfaces podem não se habituar a interfaces diferentes pois isso implicaria uma re-aprendizagem.
Sustentabilidade Um dos aspectos mais louváveis dos SOS é a colaboração contínua e o esforço e dedicação dos programadores. O seu desenvolvimento é feito com base num esforço colaborativo de toda a comunidade de interessados. Fazem-no por gosto pessoal e essa é a melhor motivação de todas. Os maiores desafios dos SOS são a compatibilidade, a gestão do projecto e o apoio ao cliente/utilizador. Conseguirão, a estes níveis, os SOS competir com os softwares comerciais?

Os SOS crescem de contribuições da comunidade online, os recursos são limitados. E há a questão da gestão a longo prazo do software.

Por se basearem numa lógica de desenvolvimento colaborativo, este tipo de software está disponível em repositórios digitais. Existem vários repositórios de SOS que podem ser encontrados nos seguintes endereços:

Existem até directórios onde é possível encontrar o substituto open source de um determinado produto comercial (Open Source as Alternative ).

Estão ainda disponíveis, aplicações baseadas na Web, conhecidas por Web 2.0. Muitas delas podem ser descobertas no directório “Web 2.0 in Education UK“. As inúmeras ferramentas disponíveis estão organizadas por temas.

Este tipo de software, para as instituições em causa, pode ter aplicabilidade nos seguintes domínios:

  • Kits de instalação
  • Sistemas Integrados de Bibliotecas
  • Gestao de colecções – sistemas de gestão de repositórios
  • Portais
  • Ferramentas de pesquisa
  • Link Resolvers
  • Aplicações office
  • Ferramentas Internet
  • Sistemas de Gestão de Cursos
  • Publicação de conteúdos
  • Manipulação de imagem
  • Ferramentas de autorização/autenticação

Ficam aqui alguns exemplos de SOS de interesse para algumas áreas de Bibliotecas, Centros de Documentação e Arquivos (Tramullas, 2005):

Obviamente que a garantia de qualidade é uma premissa de extrema importância para qualquer instituição. As perguntas: aquele software é de confiança? É suficientemente maduro para satisfazer as necessidades da minha instituição? São inevitáveis na cabeça de qualquer responsável de serviço já que no caso do SOS não há uma empresa a quem pedir satisfações. Mas, existe actualmente, pela mão da plataforma A framework for evaluation open source software, a Business Readiness Rating (BRR) que se apresenta como uma proposta normativa para a avaliação (rating) de Software Open Source. Esta normativa pretende facultar um meio para que a comunidade possa avaliar este tipo de software de modo normalizado, facultando a comparação de resultados. Está disponível em http://www.openbrr.org/wiki/images/d/da/BRR_whitepaper_2005RFC1.pdf

Dentro de pouco tempo será expectável que, a nível profisisonal, no panorama nacional mais se aplique e fale sobre software open source na área da Informação.

Bibliografia

Business Readiness Rating. Open BRR [em linha]. [S.l.:s.n.] (revisto em 8 de Maio de 2007) [consult. Em 19 Nov. 2008] Disponível em URL: http://www.openbrr.or /wiki/index.php/Home

CASTELLS, Manuel – O fim do milénio. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. ISBN 972-31-1055-5.

CASTELLS, Manuel – A sociedade em rede. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. ISBN 972-31-0984-0.

GNU. The GNU Operating System [em linha]. [S.l.: s.n.] (revisto em 06 de Maio de 2008) [consult. Em 19 Nov. 2008] Disponível em URL: http://www.gnu.org/home.pt-br.html

KWOK, Danny. The pros and cons of open source software. Helium [em linha]. 2008. [consult. 19 Nov. 2008]. Disponível em URL: http://www.helium.com/items/847241-the-pros-and-cons-of-open-source-software

TRAMULLAS, Jesús – Software libre para gestión de recursos de información digital. Actas da II Conferencia Internacional de Software Libre. Mérida, Espanha. 2005. pp. 346-356

ZARGARYAN, Tigran – Open-source software: pros and cons. European Library Automation Group (ELAG) [em linha]. 2007. [consult. 19 Nov. 2008] .Disponível em URL: http:// http://elag2007.upf.edu/workshops/zargaryan.pdf

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Análise de software open source para o tratamento documental

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