Sessão de entrega do Prémio Raul Proença´06 – intervenção do Presidente da BAD

Deixe um comentário

Exma. Srª Prof. Doutora Paula Morão
Exmo. Sr. Prof. Doutor José Viriato Capela
Exmo. Sr. Dr. Henrique Barreto Nunes
Exma. Srª Drª Fernanda Ribeiro
Exmo. Sr. Prof. Doutor Norberto Cunha
Caros colegas
Caros estudantes

A BAD adoptou desde a sua fundação, em 1973, uma perspectiva de intervenção que em nada se configura como sendo de natureza meramente corporativa.

É certo que a defesa dos interesses dos profissionais nos aspectos relativos ao seu estatuto sócio-profissional tem constituído uma preocupação central da Associação. Foi assim logo após 25 de Abril de 1974, quando reclamou para os técnicos de biblioteca e de arquivo um enquadramento em matéria de carreiras e remunerações idêntico ao de outros profissionais da Administração Pública também possuidores de estudos universitários. É também assim, actualmente, em virtude do sério revés que constitui para este grupo profissional a recente reestruturação das carreiras da Administração Pública, que abre de par em par as portas à admissão de pessoas sem as competências necessárias ao adequado desempenho de funções na área da informação e da documentação.

A luta pela criação, valorização e especificidade das carreiras profissionais tem sido sempre enquadrada numa perspectiva mais ampla, a da necessidade de dotar o país de um moderno sistema de bibliotecas e de arquivos e de que esse objectivo só é alcançável com o contributo de um corpo profissional altamente qualificado.

É essa perspectiva, predominante ao longo de todo o tempo de vida da BAD, que justifica a actividade de intervenção política da Associação no sentido de o país ultrapassar a miserável herança recebida do anterior regime e se dotar de uma moderna infra-estrutura nacional de redes de arquivos, bibliotecas e outros serviços de informação e documentação bem como de um ensino especializado e de uma formação profissional que preparem convenientemente os profissionais de nível superior e de nível médio necessários ao bom funcionamento de todas as componentes dessa infra-estrutura.

É essa mesma perspectiva integrada, em que surgem estreitamente relacionados o estatuto profissional, as competências profissionais e a natureza e a qualidade da infra-estrutura, que justifica os serviços que a BAD presta aos associados e que visam contribuir para o seu desenvolvimento profissional, designadamente:

  • reuniões profissionais, em especial congressos e encontros temáticos que oferecem oportunidade de debate sobre os aspectos políticos, sociais, culturais, técnicos e tecnológicos relativos à informação e à profissão;
  • programas anuais de formação profissional contínua;
  • difusão de informação relevante para os profissionais
  • acesso a literatura especializada

A criação do Prémio Raul Proença, em 1998, no âmbito das comemorações dos 25 anos da BAD, está em sintonia com o modelo de intervenção que a Associação adoptou desde a fundação.

O Prémio, criado para distinguir trabalhos no âmbito da Biblioteconomia, da Arquivística e da Ciência da Informação, tem como principais objectivos “estimular a investigação e desenvolver o estudo das qualificações, técnicas e práticas profissionais bem como da política, dos programas e recursos nacionais de informação e da sua inserção e interacção na sociedade”.

A iniciativa dá, assim, resposta específica a um dos objectivos da Associação, consagrado nos respectivos Estatutos, que consiste em “fomentar a investigação nas áreas relativas aos sectores profissionais” que a Associação representa.

Entendeu-se, de facto, por ocasião da criação do Prémio Raul Proença, que Portugal carecia de actividade de investigação e de literatura especializada nos domínios que o prémio abrange. Os estudos de especialização nesses domínios, pela sua natureza, pelos seus conteúdos e pelos métodos de ensino utilizados, não proporcionavam condições para a realização de trabalho de pesquisa nem fomentavam uma atitude de reflexão e de escrita, posteriormente, em contexto de trabalho.

Dez anos depois, a situação não é, porventura, exactamente a mesma. O próprio prémio reflecte alguma mudança. Depois de um início titubeante, com muito poucos trabalhos apresentados a concurso e mesmo sem trabalhos candidatos em dois anos, 1999 e 2003, nos anos mais recentes registou-se um maior número de candidaturas e, por outro lado, uma saudável diversidade de temas que denota o envolvimento de profissionais de diversos sub-sectores no trabalho de análise, reflexão e investigação.

Mas esta mudança é insuficiente. É necessário criar todas as condições e sinergias para que cresça exponencialmente a literatura especializada feita por portugueses, que reflecte sobre a realidade nacional ou mesmo que dá um contributo para o progresso da ciência e da gestão da informação no plano internacional.

Espera-se que as alterações que se têm vindo a operar no ensino superior especializado no que respeita a conteúdos, métodos de ensino – aprendizagem e ciclos de estudos contribuam para esse objectivo. Essa é a quota-parte da responsabilidade que cabe às universidades.

Pela parte da BAD, considera-se que o Prémio Raul Proença não perdeu razão de ser com as alterações que estão a ocorrer no ensino superior. Antes pelo contrário, o prémio pode constituir um instrumento cada vez mais forte ao serviço do objectivo de construir uma literatura nacional em Ciência da Informação, Biblioteconomia e Arquivística.

Foi nesse sentido que a BAD e a Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas procederam à assinatura de um protocolo no passado dia 31 de Outubro de 2008, que tem como objecto o apoio financeiro continuado da DGLB à BAD no que respeita ao Prémio Raul Proença, ultrapassando-se a situação anterior de solicitação anual de apoio e ausência de garantia da sua concessão, e acordaram alterar o regulamento do prémio por forma a permitir a apresentação a concurso de dissertações de mestrado ou doutoramento, não se considerando como divulgação prévia a defesa pública dessas dissertações.

Ao contrário do que nós, profissionais de informação e documentação portugueses, fazemos repetidas vezes, isto é, lamentar o estado das coisas em Portugal no que diz respeito às políticas, ao ensino, à investigação ou à produção de literatura especializada, hoje, nesta cerimónia de entrega do Prémio Raul Proença à Prof. Doutora Fernanda Ribeiro temos bons motivos para a felicitarmos e simultaneamente para nos congratularmos com a obra que colocou à nossa disposição.

A Prof. Doutora Fernanda Ribeiro venceu a edição de 2006 do Prémio Raul Proença com a obra “Para o estudo do paradigma patrimonialista e custodial: a Inspecção das Bibliotecas e Arquivos e o contributo de António Ferrão (1887-1965)”.

Não me parece nada difícil secundar a opinião do Sr. Prof. Doutor Norberto Cunha quando diz, no prefácio à obra, que esta “é sem dúvida, o mais notável contributo, em língua portuguesa, para o conhecimento histórico das bibliotecas e dos arquivos portugueses entre os anos referidos”.

A riqueza desse contributo torna mais fácil compreender as razões pelas quais as bibliotecas e os arquivos chegaram a 25 de Abril de 1974 no estado depauperado que é conhecido, estado indigno de um país com a riqueza documental que Portugal possui e que foi dos primeiros a criar estudos superiores em Biblioteconomia e Arquivística. E, por outro lado, torna-se também mais fácil compreender porque, apesar dos progressos feitos após a instauração da democracia, nos encontramos ainda tanto aquém do que seria desejável. Porventura, porque se continuam a cometer alguns dos erros e algumas das omissões do período que é analisado na obra, com consequências nefastas idênticas.

É por isso que, citando de novo o Sr. Prof. Doutor Norberto Cunha, a partir do prefácio, diria também que esta “deve ser de leitura obrigatória”. Mas, acrescentaria, não apenas por profissionais e estudantes mas também por governantes e decisores. Para que, aprendendo com a história, mais fácil se torne fazer a leitura do presente e das suas debilidades e melhor se projecte o futuro de um sistema complexo, mas coerente e articulado, que deve garantir a cada português o acesso à informação de que necessita e à cultura de que pretende usufruir em cada etapa da sua vida.

Com a presente obra, a Prof. Fernanda Ribeiro prossegue o seu brilhante percurso como investigadora e como docente universitária e acrescenta um título maior à sua extensa bibliografia, onde, gostaria de lembrar, avulta já outro Prémio Raul Proença, por sinal de particular significado, por ter sido o primeiro, atribuído em 1998 à obra Arquivística: teoria e prática de uma Ciência da Informação, elaborada em co-autoria por esta autora e pelos Drs. Armando Malheiro da Silva, Júlio Sousa Ramos e Manuel Real.

Com muita tenacidade, provavelmente com muitos sacrifícios pessoais e certamente com muito menos apoios do que os que lhe são devidos pelas capacidades intelectuais e de trabalho demonstradas e pelo contributo que tem dado para a mudança no ensino da especialidade, para a reflexão sobre a Informação e os respectivos profissionais e para a literatura científica nacional, a Prof. Fernanda Ribeiro tem vindo a dizer-nos que podemos promover a mudança, embora isso exija trabalho, estudo, vontade firme, combate. É de mais exemplos como o da vencedora do Prémio Raul Proença 2006 que precisamos.

É por isso que tenho a enorme honra de, em nome do Conselho Directivo Nacional da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, entregar o Prémio Raul Proença 2006 à Prof. Doutora Fernanda Ribeiro.

Braga, 16 de Janeiro de 2009

António Pina Falcão

Presidente do Conselho Directivo Nacional da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas

Entrega do Prémio Raul Proença 2006

Deixe um comentário

Museu Nogueira da Silva | Av. Central | Braga

16 de Janeiro de 2009 | às 21h30|entrada livre

Em cerimónia a organizar pela Biblioteca Pública de Braga vai ser entregue à Doutora Fernanda Ribeiro o Prémio Raul Proença – 2006.
Este Prémio, que é instituído pela BAD-Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas, com o apoio da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, distingue estudos originais e inéditos realizados no âmbito da Biblioteconomia, da Arquivística e da Ciência da Informação, tendo sido atribuído em 2006 ao trabalho intitulado Para o estudo do paradigma patrimonialista e patrimonial: a Inspecção das Bibliotecas e Arquivos e o contributo de António Ferrão (1887-1965), recentemente editado pela Afrontamento.

Fernanda Ribeiro nasceu em Vila Verde em 1958, tendo concluído o curso liceal em Braga. Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (1980), obtendo o diploma do Curso de Bibliotecário-Arquivista da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1982). Doutorou-se em 1999, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com uma tese intitulada O acesso à informação nos Arquivos (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian; FCT, 2003) e fez Provas de Agregação, na mesma Faculdade, em 2006. É actualmente professora auxiliar da secção Autónoma de Jornalismo e Ciências da Comunicação, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sendo directora do Curso de Licenciatura em Ciências da Informação, desde 2003. Foi bibliotecária da Biblioteca Municipal de V. N. Famalicão e arquivista no Arquivo Histórico Municipal do Porto. É autora de cerca de 60 trabalhos publicados em Portugal e no estrangeiro, na área da Arquivística e da Ciência da Informação, designadamente sobre indexação em arquivos, classificação e instrumentos de acesso dos arquivos portugueses. Em colaboração com outros autores, publicou os livros Arquivística: teoria e prática de uma ciência da informação (Afrontamento, 1999), galardoado com o “Prémio Raul Proença- 1998”, Universidade do Porto: estudo histórico-funcional (Reitoria da Univ. Porto, 2001) e Das “Ciências” documentais à ciência da informação: ensaio epistemológico para um novo modelo curricular, Afrontamento, 2002). Nos últimos anos, tem dedicado particular atenção às questões da formação em Ciência da Informação.

No decorrer da sessão será apresentado o livro referido (Para o estudo do paradigma patrimonialista e custodial) pelo Doutor Norberto Cunha, professor catedrático aposentado da Universidade do Minho, que considera esta obra “o mais notável contributo, até hoje escrito em língua portuguesa, para o conhecimento histórico das bibliotecas e arquivos portugueses, entre os anos referidos”.

Participarão na cerimónia a Prof. Doutora Paula Morão, directora geral do Livro e das Bibliotecas, e o dr. António Pina Falcão, presidente da BAD.

%d bloggers like this: