A bagagem

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Caros leitores,

Umas das coisas que mais me marcou nesta viagem foram os contactos humanos que se desenvolveram. É incrível como as pessoas estão predispostas ao diálogo, à comunicação e à partilha nestes ambientes. Num desses contactos travei conhecimento com uma bibliotecária dinamarquesa que me descreveu um dos projectos que desenvolve na sua biblioteca para jovens adolescentes entre os 10 e os 16 anos.
Dado o meu interesse pela promoção da leitura para este target, e acreditando que é necessário reforçar e estimular a leitura nos adolescentes, tomei notas sobre o projecto para que hoje vos possa relatar e disseminar uma prática que me parece extremamente pertinente.
Assim da bagagem retiro Cultural Holiday School Project.
O principal objectivo deste projecto é o de tornar os adolescentes culturalmente mais activos. Para isso, todos os Verões a biblioteca organiza estas férias onde os adolescentes podem passar uma semana das suas férias a desenvolver actividades culturais: da música à escrita; da dança à leitura, do teatro à pintura. Mas sobretudo a grande aposta das actividades são na leitura e nos workshops de escrita, onde os adolescentes têm a possibilidade de escrever estórias na companhia e com a colaboração de um autor.
Segundo a nossa colega dinamarquesa, este projecto tem tido uma excelente aceitação e tem–se revelado como um enorme estímulo para a promoção da leitura junto de um público tão difícil como os adolescentes.
Atendo ao contexto português, julgo que não é de todo descabido as nossas bibliotecas apostarem e desenvolverem projectos como este que aqui, sumariamente relatei. Acredito francamente que este tipo de actividades realizadas em contextos externos à escolarização e ambiente de férias possam de facto motivar os adolescentes para a leitura e despertar para outros interesses culturais.
A proposta está lançada. Adoraria ver esta experiência aplicada no contexto nacional e quem sabe contribuir para o intercâmbio do projecto com a Dinamarca.

Um abraço,

Teresa Silveira

A promoção da leitura entre os jovens: uma pedra no caminho das bibliotecas públicas?

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“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.”

 

Foi com este poema de Carlos Drummond de Andrade que o francês Max Butlen, num excelente português do Brasil, concluiu a sua intervenção da manhã, a primeira do III Encontro Oeiras a Ler, que hoje teve início na Biblioteca Municipal de Oeiras.

De facto, a problemática enunciada pelo professor e investigador do Institut national de Recherche Pédagogique logo no início dos trabalhos, marcou o tom que foi sendo repetido pelas restantes intervenções do dia; este, não é mais que o mote revelador da perplexidade sentida pelos bibliotecários e bibliotecárias nos dias de hoje, face às novas modalidades de leitura, aos novos e velhos comportamentos dos adolescentes num mundo dominado pela variedade dos media, e à pressão muito contemporânea que faz equivaler a promoção de hábitos de leitura e competências de literacia à qualidade de vida e à inclusão social.

Em França, a frequência das bibliotecas públicas, por mais políticas de oferta que tenham sido desenvolvidas ao longo dos últimos 30 anos, não descola dos 30% da população, de entre a qual 40% dos utilizadores são jovens.

A situação portuguesa foi descrita por José Soares Neves, do Observatório das Actividades Culturais, que resumiu os resultados dos últimos inquéritos sociológicos, quer estritamente nacionais, quer relativos aos países da OCDE, e que apontam para níveis de frequência das bibliotecas e de leitura, entre crianças e jovens, relativamente elevados (mais nas crianças, diminuindo na adolescência), mas a partir dos quais duas questões básicas se colocam: trata-se de práticas de leitura culturais, ou de lazer, ou antes instrumentais? E, em consequência, os jovens frequentadores de bibliotecas são leitores, em particular leitores de livros?

As intervenções seguintes, do britânico Jonathan Douglas (Director do National Library Trust) e da americana Michele Gorman (Responsável pelos Serviços Juvenis da Biblioteca Pública de Charlotte & Mecklenburg County, na Carolina do Norte), salientaram as questões sociais, relacionadas com a imagem social do leitor (uma imagem negativa junto dos adolescentes, segundo J.D.) e com a biblioteca como comunidade de pertença, onde à leitura se juntam não só todos os media, como a aquisição de competências de cidadania, incluindo a produção de informação (os jovens devem apropriar-se da biblioteca, segundo M.G.).

O tema das novas modalidades de leitura sugere a necessidade de se adoptar um novo conceito de leitura, sem o qual todas as propostas de acção, por mais que se multipliquem e resultem de políticas governamentais, não passarão de iniciativas conservadoras, destinadas ao fracasso.

Reflectir sobre os valores e conceitos tradicionais que marcaram a actividade dos bibliotecários e dos mediadores da leitura é pois, fundamental: porque na dúvida sobre se “eles lêem”, ou “eles não lêem”, se calhar é possível que, a um nível que os mais velhos não conseguem acompanhar, “eles afinal leiam – e escrevam! – muito”…

 

Manuela Barreto Nunes (Vice-presidente da Delegação Regional da BAD – Norte)

 

 

 

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